Mesmo sem iniciar a expansão de
testes para a Covid-19, o número de casos confirmados no Brasil está alcançando
maiores taxas dentro das estimativas de pesquisadores. Na semana passada, os
índices parearam com as projeções mais otimistas, enquanto os levantamentos
desta semana alcançaram a média esperada. O ritmo de crescimento para os
próximos dias indica que o país pode estar se aproximando das piores
conjecturas.
O Núcleo de Operações e
Inteligência em Saúde (Nois) — parceria entre pesquisadores da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz) e do Instituto D’or — tem monitorado a curva de crescimento do novo
coronavírus para auxiliar nas medidas de combate à pandemia. Na mais recente
avaliação, o grupo demonstrou que, entre 16 a 20 de março, o Brasil tinha
conseguido manter o aumento de casos dentro da melhor projeção possível. No
cenário otimista, a previsão era de 919 casos confirmados. Na prática, o
montante ficou em 904.
A estimativa, até a última sexta-feira,
era de chegar até 5,7 mil casos (no pior cenário), 3,8 mil (na linha mediana) e
2,6 mil (no melhor cenário). Diferentemente da semana anterior, o Brasil
alcançou uma confirmação bem mais próxima da projeção intermediária,
registrando 3,4 mil infectados. No entanto, os pesquisadores acreditam que os
números apresentados oficialmente não refletem a realidade do panorama atual.
“Acreditamos que a subnotificação, um baixo volume de testagem e a demora nos
resultados dos testes confirmatórios, possam ter afetado os valores reportados
pelo Ministério da Saúde e pelas Secretarias Estaduais, de forma a estarem
abaixo do que eles são na realidade”, diz a nota técnica.
Caso o Brasil siga a mesma
tendência da Itália, as projeções do Nois indicam que, até 11 de abril, o país
ultrapasse os 25,2 mil casos. Alinhar o crescimento com o da Coreia do Sul é
tarefa impossível, pois, até a mesma data, a estimativa era de 3,8 mil casos,
número inferior aos 3.904 anunciados ontem pelo Ministério da Saúde. A meta da
equipe de Mandetta é não variar mais de 33% de aumento diário de casos, o que
vem sendo conseguido nos últimos dias. Na sexta-feira, a variação foi de 17,2%,
com incremento de 502 novos casos. No sábado, o aumento ficou em 14,25%,
considerando-se o registro de 487 casos adicionais no país.
Com a implementação dos testes
rápidos no Brasil, que deve começar na próxima semana, o próprio ministério
prevê um aumento exponencial de casos, revelando pessoas infectadas e que
estejam assintomáticas ou fora dos casos graves. “Quanto mais gente testada,
mais casos serão revelados. Isso ajudará a entender a dinâmica da virose, tanto
para o Brasil quanto para o mundo”, explicou secretário-executivo João
Gabbardo. Serão oito milhões de testes rápidos de 11 marcas liberadas pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Contando com a ampliação de
exames laboratoriais, o país deverá realizar 22,9 milhões de testes.
Avaliação
Para a pesquisadora em biologia
molecular e professora da Universidade de Brasília Andrea Maranhão, os números
atuais mostram, além da subnotificação, a constatação de que o brasileiro ainda
não conseguiu se alinhar às medidas preventivas. “Ainda não caiu a ficha do
isolamento social na força com que deveria. E isso vai piorar, porque agora
temos uma contrainformação do governo federal, indo na contramão da restrição e
causando uma confusão completa para a população”, criticou.
A especialista ressaltou a
importância do afastamento social como medida para conter o avanço do vírus.
Afrouxar a quarentena seria um desastre nesse momento. “Jogaria o pico para as
próximas semanas. O que buscamos é um achatamento dessa curva”. A estratégia do
isolamento não tem como finalidade diminuir o número de infectados, mas
distribuir os casos em um maior período de tempo. “O objetivo prioritário é não
extrapolar o limite de leitos, equipes e equipamentos para receber os doentes.
Isso impacta no número de mortes, reduzindo pela metade quando se há a oferta
de atendimento hospitalar”, explicou a pesquisadora.
A perspectiva para o próximo mês
é que a epidemia aumente no Brasil, uma vez que o país está no início da curva
de crescimento pela qual a Itália, Reino Unido e Estados Unidos passam hoje. A
equipe do Ministério da Saúde resiste em fazer comparações entre países, mas
adianta que o cenário será crítico. “Vamos ter 30 dias muito difíceis, sem
previsão de reduções de novos casos. Simulações são muito precoces para se
fazer. Nossa intenção é fazer que a curva reduza o máximo possível”, declarou o
secretário-executivo João Gabbardo.
O cenário deve ser agravado,
ainda, com os maiores picos de dengue e outras síndromes respiratórias graves,
decorrentes do início do período sazonal. A recomendação da pasta é para que os
grupos de risco se vacinem contra a gripe, evitando a concorrência por leitos
de hospitais. A população deve se atentar às regras de etiqueta respiratória,
evitando, ao máximo, sair de casa.
Correio Braziliense



