Você está em: CEARA // Notícia de Anselmo // 5 de agosto de 2020

Rente a desafios sem precedentes impostos pela pandemia do novo coronavírus, empresas cearenses precisaram acelerar processos de inovação que acabaram não só salvando os caixas desses negócios, como ampliando o faturamento e até favorecendo a criação de novos empreendimentos no Estado.
O assessor especial da diretoria de Inovação e Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Rafael Campos, aponta que a pandemia escancarou um atraso geral da indústria ainda maior do que se imaginava, de forma que adaptações, como a digitalização, tiveram de acontecer mais rápido para permitir a continuidade do funcionamento das empresas no isolamento social.
"Ainda temos muito que avançar. Até empresas que eram consideradas de ponta tiveram que se adaptar nesse período, reacomodando tecnologias. No ecommerce, por exemplo, precisa de uma logística estruturada para funcionar. Muitas foram construídas da noite para o dia, revelando atraso maior do que esperávamos. As empresas estão tendo que correr atrás agora".
Campos revela três níveis de gargalos principais no processo de inovação no Ceará. Segundo ele, a primeira camada consiste na própria cultura, na não aceitação do uso das tecnologias disponíveis. Ele pontua que até mesmo a população mais jovem não costumava usar aplicativos para fazer compras em supermercados, por exemplo, embora já estivessem disponíveis. "Não usavam simplesmente porque não tinham costume. Com a pandemia, esse uso melhorou por necessidade mesmo. É o entrave mais básico", esclarece.
Ele detalha dificuldades dos próprios empresários, que muitas vezes não possuem domínio das opções ofertadas pelo mercado, atrapalhando a escolha do que é melhor para cada situação. "Por fim, nós temos as tecnologias mais avançadas, que precisam do amadurecimento nos dois níveis anteriores para serem aplicadas, como tecnologia das coisas, inteligência artificial".
Oportunidade
O presidente da Biomátika (indústria do setor de cosméticos), José Dias, conta como uma nova linha inteira de produtos foi desenvolvida pensando no combate ao coronavírus e já está disponível desde abril. "A gente percebeu que, com a falta de álcool em gel no início, as pessoas precisavam de algo para higienizar as mãos. E a primeira recomendação das autoridades de saúde é realmente água e sabão. Então, desenvolvemos esses produtos em plena pandemia", destaca.
Os novos produtos passaram a ser o carro-chefe da marca, que precisou ampliar em 20% o número de funcionários para atender à demanda. Dias ainda revela que o faturamento da empresa aumentou 70% no período, com as vendas tanto no atacado, para empresas que precisam reforçar a higienização em seus ambientes, quanto no varejo, chegando ao consumidor por supermercados e farmácias.
Alimentos
Apesar de ser um dos setores menos impactados com a pandemia de Covid-19 no Estado, o setor de alimentos também precisou repensar algumas práticas durante a crise. O bem-estar dos funcionários, a redução nos custos de produção e a sustentabilidade ambiental foram alguns dos pontos lapidados pelas empresas.
De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias da Alimentação e Rações Balanceadas no Estado do Ceará (Sindialimentos-CE), André Siqueira, o impacto no setor não foi uniforme. "Temos algumas empresas que passaram a vender mais, principalmente as que vendem ovos. Assim como o setor de castanha também obteve bons resultados, ao firmarem contratos de exportação. Ao mesmo tempo, o ovo de codorna caiu, já que ele é oferecido principalmente em self-service e barracas de praia", exemplifica.
Em tempos de crise, reduzir os custos otimizando os processos de produção e construir consciência ambiental também se tornaram assuntos de valor dentro das empresas. Exemplo disto é a previsão no crescimento do faturamento da Biotrends, especialista em probióticos para peixes e camarões. "No Ceará, com a intensidade da produção de camarão e peixe, esses produtos são peças-chave para fazer com que ela se desenvolva de forma saudável, para melhorar a qualidade da água e do solo", explica o sócio da empresa, Alysson Lira.
Outro ponto positivo na utilização da tecnologia é a conversão de alimentos, relação entre a quantidade de ração necessária para produzir um quilograma dos pescados e o preço do produto final.
Em 2019, a Biotrends faturou R$1,2 milhão, número que, de acordo com Lira, deve ser 50% maior em 2020, com o lançamento de mais dois produtos e a inserção da empresa no mercado pet. "Hoje, trabalhamos com 10 funcionários diretos, 10 representantes comerciais e cinco pontos de vendas. Estamos inaugurando nossa nova sede até o fim do ano e pretendemos triplicar este número em 2021".
Clonagem
A forte atuação da biotecnologia também pode ser percebida na Bioclone, biofábrica cearense de clonagem de plantas. "O grande diferencial na questão ecológica é que ela é cultivada in vitro, que não utiliza defensivos agrícolas, conhecidos como agrotóxicos. Depois elas vão para as estufas, em cultivo protegido, os riscos são mínimos", afirma o CEO da empresa, Roberto Caracas.
Apesar da expectativa de estagnação no faturamento deste ano, Caracas afirma que há novos contratos de exportação sendo firmados. "Nós atendemos todo o Brasil, com ênfase no norte de Minas Gerais. Já fizemos algumas exportações pontuais para Cabo Verde, mas temos demandas para Angola e Moçambique".
A Bioclone é a primeira biofábrica do Ceará, o que, segundo o CEO da empresa, facilita o acesso de pequenos e médios produtores à tecnologia.
"Durante o processo de fabricação in vitro, nós utilizamos tecnologias que reduzem o preço do produto, como os biorreatores, que fazem com que a planta se desenvolva mais rápido. Então, conseguimos transpor esse ganho, fazendo com que o pequeno produtor tenha acesso a uma tecnologia que antes era só dos grandes produtores", diz.
Controle
A NWAY PRO, empresa de sistemas de controle de ambientes, como catracas, desenvolveu um produto para reduzir o contato e evitar contaminação pelo coronavírus, passado a utilizar reconhecimento facial, por exemplo, e sensores de proximidade. O CEO da empresa, Tiago Oliveira, ressalta que 40% dos clientes já fizeram a atualização e a expectativa é que a proporção chegue a 80% até o fim do ano.
"São tecnologias usadas fora do Brasil há muito tempo, mas que aqui iniciou a procura somente agora com a pandemia. O novo serviço ainda permite uma gestão inteligente do número de pessoas que estão dentro do ambiente, de forma a se evitar aglomerações. É muito eficiente em hospitais, podendo limitar a um acompanhante para cada paciente, por exemplo. Já estamos presente em quase todos os hospitais do Estado".
Relacionamento
No mercado há dez anos com assessoria jurídica e cobrança, a Dinâmica Consultoria viu o faturamento cair 60% na pandemia diante da queda na renda familiar e a não priorização do pagamento de dívidas. A sócia-diretora da empresa, Isa Paiva, revela que 60% dos 25 funcionários tiveram de ser demitidos.
Em meio à dificuldade, ela e o sócio, Milton Paiva, resolveram colocar em prática um plano que vinham pensando desde o ano passado: uma empresa de ferramentas de comunicação em massa. A partir de sistemas que já eram usados nos processos internos, nasceu a Dinâmica Soluções.
"Usamos mensagens de voz, SMS, email, ligações automáticas, tudo personalizado, que podem contribuir no processo de vendas a distância, atualizando o consumidor sobre possíveis promoções, ou mesmo estreitar o relacionamento, com felicitações de aniversário", explica Milton. A empresa já conta com 20 clientes regulares.
Virtual
A academia Personal fez a transição definitiva para o meio virtual na pandemia. Focada em alunos idosos ou com alguma restrição física, o sócio-diretor do empreendimento Helder Montenegro percebeu que não teria como voltar à atividade até que estivesse disponível uma vacina ou um remédio eficiente. Sem conseguir manter os custos por tanto tempo sem faturar, ele resolveu fechar a academia e investir em uma franquia, a Person@ll.
Lançado em junho, o negócio consiste em uma plataforma online que conecta personais trainers e alunos. Em apenas um dia, foram vendidas 252 franquias, recorde nacional. Montenegro detalha que, além da própria plataforma, os profissionais de educação física ainda recebem treinamento científico, liderado pelo também fundador do negócio Paulo Gentil, e de marketing e gestão. "Nossos franqueados ainda estão em treinamento, mas alguns já estão atendendo", comemora Montenegro.
Transformação Digital
Para auxiliar as empresas nesse processo de modernização, a Fiec inicia hoje (4) Fórum de Transformação Digital com o tema "Indústria 4.0 e automação industrial no cenário pós-Covid-19".
Rafael Campos, assessor especial da diretoria de Inovação e Tecnologia da Fiec, detalha que o objetivo é ajudar os empresários a escolherem a melhor solução para seus negócios, sem necessariamente gastar muito, nem precisar de uma mudança complexa. "Em períodos de caixa limitado, a melhor saída é ser assertivo, eficiente. Ainda precisamos desmitificar a inovação".
 
O POVO
Caderno: CEARA
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