Você está em: MUNDO // Notícia de Fagner Freire // 14 de junho de 2022

 Na América Latina, há mulheres traficantes de drogas que se tornaram líderes de cartéis, embora suas histórias costumem passar despercebidas — Foto: BBC

A recente prisão, em Honduras, de Herlinda Bobadilla levantou muitas perguntas sobre quem era essa mulher de 61 anos que teria se tornado a líder de um dos principais cartéis de drogas da América Central.

Muito pouco se sabia publicamente sobre "la Chinda", apesar de ela ser considerada a chefe de uma facção acusada de enviar toneladas de cocaína por meio de ligações com cartéis mexicanos e colombianos para os Estados Unidos, país que chegou a oferecer uma recompensa de US$ 5 milhões (R$ 24,5 milhões) para obter informações que levassem à sua captura.

A história de Bobadilla, como a de muitas mulheres traficantes de drogas de alto escalão nos cartéis latino-americanos, passam muito mais despercebidas pelo mundo e, às vezes, até pelas próprias autoridades que as investigam.

O papel da mulher no crime organizado geralmente é apresentado à opinião pública como o de parceira ou parente do traficante que controla de fato o negócio. Ou como uma pessoa que quase involuntaria e compulsoriamente herda essa tarefa quando o homem é preso.

Mas é sempre assim? Quais são os verdadeiros papéis das mulheres no crime organizado? Pouco se sabe sobre elas porque ocupam posições de menor poder, ou outros fatores estão em jogo? Quem são essas mulheres pouco conhecidas?

A BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, entrevistou Deborah Bonello, jornalista maltesa-britânica que vive na América Latina há quase 20 anos e investiga o crime organizado na região.

Nos últimos quatro anos, o trabalho dela se concentrou em aprender mais sobre o papel das mulheres nesses grupos, o que resultou em uma extensa reportagem publicada em outubro no site da revista VICE, com o título "Las patronas: la historia secreta de las jefas de cárteles en América Latina" (As patroas: a história secreta das chefes de cartéis na América Latina, em tradução livre) e que no próximo ano se tornará um livro.

É comum identificar Emma Coronel, esposa de Joaquín "El Chapo" Guzmán, como um dos papéis típicos (e mais conhecidos) de mulheres ligadas ao tráfico de drogas — Foto: GETTY IMAGES/via BBC

Em entrevista à BBC News Mundo, ela diz que decidiu investigar o papel das mulheres no crime organizado para retratar uma abordagem diferente em relação às mulheres no crime.

"Sempre cobri o assunto como jornalista desde que cheguei ao México, há 15 anos. No entanto, vi que as narrativas sobre essas mulheres eram muito escassas e que há anos elas se limitam no crime organizado como esposas, namoradas, vítimas, obrigadas a cometer crimes. São falsos estereótipos que temos sobre o gênero e que, embora nestes anos tenhamos visto que a imagem da mulher mudou, no campo do crime organizado ela permaneceu às sombras", afirma.

Para ela, isso ocorre porque a maior parte dos jornalistas que trabalham com o tema são homens.

"Sinto que, em geral, o homem chega com uma ideia de quem manda nesses grupos e de como são as estruturas de poder. Então, dificilmente incluem mulheres nas investigações. Também vemos isso nas manchetes, como no caso da "Narcomami" [ao se referir a Enedina Arellano Félix, que se tornou chefe do cartel de Tijuana]. Você nunca vai chamar [o ex-líder do cartel de Sinaloa] Chapo de "Narcopapi", não é?", questiona Deborah Bonello.

Debora assinala ainda que as mulheres são geralmente descritas de maneira estereotipada por jornalistas que cobrem o crime organizado na América Latina.

"Elas são sempre retratadas como vítimas, porque o marido as obrigou (a participar do crime organizado). O que, conforme pesquisei, parece mais com o desejo do mundo de ver mulheres assim. Há um choque muito forte na América Latina, e no México em particular, entre aquela imagem clássica da "mamãe" e a de uma mulher que anda por aí matando e traindo. É como se eles não quisessem ver essa parte da mulher porque é difícil para eles, e eu entendo isso. Por definição, o traficante é do sexo masculino, e os exemplos que vemos na mídia confirmam essa ideia", explica.

Estes são os perfis das seis traficantes investigadas por Bonello. 

 

(g1)


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