Um ano após criança e jovens serem baleados, vítimas cobram celeridade da justiça no caso de Hidrolândia

 Criança de 10 anos e dois jovens baleados por policiais em Hidrolândia, no Ceará — Foto: Reprodução

O caso aconteceu na noite de 9 de julho de 2021. Quatro jovens e a criança estavam em um carro, retornando de um campo de futebol do município onde estavam soltando bombinhas de São João, quando no retorno para casa foram surpreendidos por tiros disparados por policiais de um carro da Polícia Militar.

Durante o ocorrido, um jovem de 22 anos foi atingido nas costas, com risco de ficar paraplégico, mas passou por uma cirurgia; a criança, de 10 anos, foi atingida no pescoço e também precisou passar por vários procedimentos cirúrgicos; e o motorista do veículo, o universitário Pedro Henrique Peres, de 21 anos, levou um tiro na coxa e na cabeça, o que causou a perda da visão de um dos olhos.

Além dos três feridos, no carro também estavam Amanda Carneiro, à época gestante de gêmeos, irmã do garoto e mulher do condutor do carro, e uma amiga. Elas não foram atingidas.

Para Pedro Henrique, além de conviver com o trauma, ele e as outras vítimas ainda enfrentam a demora no julgamento dos agentes.

"O trauma ficou, não se pode negar. Quero justiça justa, porque o que a gente passou e o que a Justiça está concedendo para esses policiais está sendo uma moleza. A gente espera que eles sejam expulsos do Batalhão e cumpram a lei", disse Pedro Henrique.

Amanda Carneiro, que teve o irmão e o companheiro baleado, afirmou que a última movimentação no processo ocorreu há alguns meses, com o depoimento das testemunhas.

"A gente sempre vai carregar essa marca, porque não dá para apagar assim. O trauma que a gente viveu até hoje quando eu falo sinto emoção, um remorso, uma tristeza. Não gosto nem de lembrar de toda aquela cena, de tudo aquilo horrível que a gente passou. O caso está parado, a última vez que movimentou foi há alguns meses, em uma audiência para ouvir as testemunhas e, desde então, nada", lamentou Amanda.

Defesa pediu revisão das medidas cautelares

Em outubro do ano passado a Justiça  acolheu a denúncia ofertada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) e tornou réu os dois policiais militares suspeitos de atirarem contra o carro em que as vítimas estavam, pelo crime de lesão gravíssima.

Entre as medidas cautelares solicitadas pela Justiça, os agentes foram afastados do policiamento ostensivo nas ruas, proibidos de acessar os limites do município de Hidrolândia e transferidos para funções administrativas no município de Sobral.

Em junho deste ano a defesa do policial militar Jonas Ferreira Soares solicitou uma revisão das medidas cautelares aplicadas. Entre as justificativas, está a questão da segurança do agente, que em abril foi ameaçado de morte e a distância entre a cidade em que ele reside e o local de trabalho.

"Em abril deste ano o Jonas sofreu uma ameça, uma pessoa enviou uma foto de um revólver, o que deixou a situação ainda mais delicada. Visando garantir a segurança do agente nesse trajeto entre os municípios nós indicamos a 1ª Companhia Independente do 3º Comando Regional de Tianguá, que é próximo de onde ele reside e não tem o município de Hidrolândia na cobertura. Justamente por entendermos que não é necessário que ele volte a trabalhar em Hidrolândia", disse Abraão Jhoseph, advogado que representa o agente Jonas.

Conforme Abraão Jhoseph, Jonas e o outro agente agiram em legítima defesa, pois semanas antes do ocorrido já circulava a informação sobre um carro com as mesmas características do que estavam os jovens abordados fazendo disparos de arma de fogo nas ruas do município.

Além disso, no dia do caso os agentes receberam três denúncias de disparos em via pública com as características do veículo.

"Depois que foi designada essas três denúncias via Ciops, mensagens no WhatsApp do Batalhão e de um policial que morava próximo, os agentes foram ao local, visualizaram o veículo, desceram da viatura e deram ordem de parada", relatou Abraão.

Ainda segundo o advogado, o condutor do carro desobedeceu à ordem de parada e jogou o carro nos agentes.

"O indivíduo que estava dirigindo desobedeceu à ordem de parada em um local perigoso, por volta das 23h, e jogou o veículo para cima dos policiais militares. Após o carro passar ao lado da viatura, os policiais iniciaram os disparos para conter a situação. Os policiais tomaram essa atitude em legítima defesa. Qualquer policial que estivesse no lugar do Jonas e seu companheiro teria feito a mesmíssima coisa", disse o advogado de defesa de Jonas.

Para a defesa, o grupo estava armado e se desfez do equipamento durante o percurso. Além disso, a defesa acredita que houve falha durante as investigações.

"Entre o primeiro e segundo contato deles com os policiais foi um espaço muito grande, que possivelmente se daria para descartar uma arma. Todas as circunstâncias levam a crer que eles estavam munidos de uma arma de fogo. Na época havia um toque de recolher por conta de um decreto municipal, que também estava sendo desobedecido. A intenção do policial jamais foi atingir cidadãos. A Polícia Civil era para ter feito um cerco no local,o veículo não foi apreendido e ficou com os familiares das supostas vítimas, todo o aparato da investigação foi falho", disse a defesa de Jonas.

O Tribunal de Justiça informou que a ação penal que os réus respondem encontra-se conclusa para decisão na Vara de Auditoria Militar da Comarca de Fortaleza. 



(G1/CE)

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