Padre acumula virais nas redes com humor e mensagens de fé

Padre Ránis Dias viralizou com vídeo em que reagia a cântico na missa que lembrava música da Banda Calypso — Foto: Reprodução

Padre Ránis Dias viralizou com vídeo em que reagia a cântico na missa que lembrava música da Banda Calypso — Foto: Reprodução

 



Uma missa em que os músicos escolheram um ritmo diferente para o hino do “Santo” mudou a relação do padre Ránis Dias com as redes sociais. O sacerdote de 35 anos é pároco na cidade de Uruburetama, no interior do Ceará, e passou a mostrar seu lado mais descontraído depois que o vídeo da reação dele ao cântico viralizou de forma espontânea. 

Tudo começou quando o grupo encarregado pela música da celebração escolheu um ritmo que lembrava a música “Acelerou”, da banda Calypso. Presidindo a missa, o padre tentou se segurar, mas não conteve a risada .

Depois desse episódio, registrado em setembro de 2024, o bom humor que faz parte da personalidade de Ránis ajudou a criar uma relação de proximidade com os seguidores nas redes sociais, estejam eles na comunidade ou espalhados pelo mundo.

“Quem gosta de tristeza é o diabo”, cita o padre em referência à frase que aparece na obra O Auto da Compadecida, do escritor pernambucano Ariano Suassuna.

Um ‘erro litúrgico’ que mudou tudo

O vídeo mais famoso no perfil do padre Ránis Dias surgiu de uma decisão equivocada. Durante uma missa celebrada na Capela de Santa Rita de Cássia, na localidade de Bananal, o grupo responsável pelas músicas da celebração escolheu um ritmo ‘meio duvidoso’, como brinca o sacerdote.

A introdução da música, que lembrou canções que embalam serestas e festas fora do contexto religioso, surpreendeu o padre.

“Essa minha reação de achar graça, de ficar surpreso, viralizou de uma forma extraordinária”, lembra Ránis Dias.

Ele recorda que a postura dele não foi a de repreender a música, que não estava tão adequada à liturgia da missa. Como explica, o grupo que cantava na celebração incluía crianças e adolescentes que se dedicam com amor ao serviço.

“As pessoas ali estão de boa vontade, e o que nos cabe é orientar, ensinar. Porque a missão do padre não é de brigar, não é de represália na vida das pessoas, mas de mostrar o caminho certo”, comenta.

No local onde a missa foi celebrada, não havia sinal no celular do padre Ránis. Foi ao descer a serra da comunidade do Bananal, cerca de uma hora após a celebração, que ele percebeu que um recorte da transmissão da missa já estava circulando entre grupos e até perfis de redes sociais da cidade.

O vídeo repercutiu nacionalmente. Para ele, o momento foi de aproveitar a exposição para mostrar mais a rotina como sacerdote, o trabalho da paróquia e aspectos positivos da cidade de Uruburetama.

“Por onde eu vou, sempre tem gente que diz: 'Padre, eu todo dia vejo as suas homilias, todo dia compartilho, coloco no grupos da minha família'. Isso tem sido tão gratificante porque, além da minha paróquia física, eu agora tenho também uma paróquia aqui nas minhas mãos, que é uma paróquia virtual onde eu atinjo e alcanço milhares de pessoas todo santo dia”, conta.

Atualmente, o perfil do padre conta com seguidores de todos os estados do país, além de brasileiros que moram em outros países, como Alemanha, Itália e Estados Unidos. Nas interações presenciais, ele ainda é reconhecido por conta do “vídeo do Calypso”, publicado há quase dois anos.

Ele conta que recebe vários convites para celebrar missas, fazer palestras ou conferências em outras cidades do Brasil. No entanto, a rotina de cuidados com a paróquia faz com que ele raramente consiga atender a estes pedidos.

O sonho de ser padre ainda na infância

Padre Ránis Dias é pároco em Uruburetama, no Ceará, há quase cinco anos — Foto: Reprodução


Ránis nasceu e cresceu no município de Granja, também no interior do Ceará, em uma família de forte devoção católica. Dentre as referências de fé, ele lembra da mãe, das tias e da avó, que ajudava nos cuidados de uma igreja centenária no centro da cidade.

Outra inspiração foi o monsenhor José Maria de Vasconcelos, cuja postura ele admirava ainda quando criança.

“Eu achava bonito ver aquele sacerdote todo vestido de batina no altar, celebrando a Santa Missa. E eu olhava pra ele, ainda criança, e dizia assim: ‘olha, eu quero ser um dia como aquele padre’. E eu comecei a ser coroinha do monsenhor com quatro anos de idade”, recorda.

Sozinho ou com os amigos, ele brincava de celebrar missas, fazer procissões e conduzir momentos de oração. Na adolescência, ele criou a Banda na Fé, que cantava nas missas e fazia momentos de louvor e evangelização nas comunidades de Granja.

Com cerca de 18 anos, Ránis começou a participar de encontros vocacionais, redescobrindo o desejo de se tornar sacerdote. A partir de 2010, foram nove anos de preparação, com estudos e vivências em cidades como Tianguá, Sobral, Amontada e Fortaleza. Ele foi ordenado como diácono em 2019 e como sacerdote em 2021.

Ránis passou alguns meses em uma paróquia de Itapipoca antes de ser nomeado pároco na cidade de Uruburetama, na Paróquia São João Batista. O padre vai completar cinco anos nesta missão no próximo mês de fevereiro.

Evangelização com alegria

Nas redes sociais, os conteúdos publicados pelo padre Ránis são variados: há informes para os paroquianos, vídeos que apostam no humor, as rotinas da missão como sacerdote e recortes das pregações dele durante as missas.

Os conteúdos mais descontraídos mostram as brincadeiras dele com as pessoas da comunidade. Em algumas situações, o padre está andando de bicicleta, andando a cavalo, testando os brinquedos dos parques de diversão ou parando para tomar um café na casa dos paroquianos.

Conforme o sacerdote, estas situações fazem parte de sua rotina e de sua característica como uma pessoa comunicativa e que busca a proximidade com os paroquianos.

“Às vezes, as pessoas olham para o padre como aquele padre ranzinza, mais sério, que por qualquer coisa vai dar um carão. E eu tento muito quebrar isso. Cristo era e continua sendo a verdadeira alegria, né? Então nós temos, como ministros de Deus, que quebrar essa visão muito rígida, muito centralizadora do sacerdócio como algo intocável”, reflete Ránis.

Com esse trabalho diário, o padre comemora o retorno de muitos católicos que estavam afastados da Igreja na cidade. Outro ponto que ele destaca é a aproximação de algumas pessoas de outras religiões. Um dos exemplos é o casal que atualmente ajuda a selecionar conteúdos para as redes sociais dele.

Nascidos em famílias evangélicas, os dois passaram a conhecer melhor a doutrina católica a partir da amizade com o padre. Eles oficializaram os sacramentos do batismo, Eucaristia, Crisma e matrimônio na paróquia de Uruburetama.



(g1) 

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