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Yanna é estudante do 3º ano do ensino médio na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral (EEMTI) Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, colégio público de Iracema, município no interior do Ceará — a cerca de 284 km de Fortaleza.
Em 2025, quando ainda estava no 2º ano do EM, Yanna realizou a pesquisa "Rastreando a demografia do feminicídio no Ceará (2022-2025) através do aprendizado de máquina e análise cartográfica". O trabalho foi premiado na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) na categoria 1º lugar em Ciências Sociais Aplicadas e ISEF.
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💡 A Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF) é considerada a maior competição internacional de ciências pré-universitária do mundo. O evento é a principal vitrine global para jovens cientistas. A feira reúne projetos com grande rigor científico e abre portas para oportunidades acadêmicas e profissionais.
“Eu sempre gosto muito de fazer trabalhos voltados para o social. E a gente está tendo uma tomada muito crescente de feminicídios, não só no Ceará, mas também no Brasil. Só que eu decidi levar assim como enfoque principal na minha pesquisa o Ceará, porque é a região onde eu vivo”, comentou a estudante.
“Eu buscava entender quais seriam os perfis, o que poderia ser feito para a gente poder minimizar essa quantidade de feminicídios”, reforçou Yanna.
Dados das vítimas
Perfil das vítimas de casos de feminicídio obtido na pesquisa da estudante cearense. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
Yanna disse que testes feitos na ferramenta apontaram uma acertabilidade de quase 99%. Foram extraídas informações sobre os perfis das vítimas, como idade, local de residência, raça e contexto das mortes.
“A gente fez alguns outros processos para compreender a dinâmica, ver o perfil dessas vítimas. E para saber o perfil delas, a gente fez uma coleta, onde a gente obteve 174 registros. Então, a gente começou a trabalhar com estatística para detectar quais eram os perfis dessas vítimas”, explicou a estudante.
“Mas também fizemos uma análise cartográfica, que justamente era para identificar quais são as regiões mais afetadas”, acrescentou.
A pesquisa foi feita durante o ano de 2025, quando Yanna estava no 2º ano do ensino médio. Este, inclusive, não foi o primeiro trabalho científico da jovem, que já pesquisou sobre as queimadas no estado. Ligada a causas sociais, Yanna revelou que pretende cursar medicina quando terminar o ensino médio.
Uso da ferramenta
Helyson Braz, professor e orientador do projeto, explicou que o objetivo da pesquisa era entender os padrões demográficos dos feminicídios no Ceará. A base de dados utilizada envolveu notícias, boletins de ocorrência e outros registros sobre os crimes no estado.
“Justamente para a gente entender e fazer algum cálculo ou até mesmo criar algum índice que pudesse explicar quais seriam as regiões mais violentas e quais seriam as regiões que tinham maior risco de acontecer, baseado nessas evidências demográficas”, explicou o pesquisador, que é estudante de doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC).
“A gente identificou alguns padrões em relação também à faixa etária das vítimas, que se concentravam principalmente entre 20 até 30 anos. Vimos também que, das reportagens que apresentavam a cor de pele da vítima, eram mais mulheres pretas e pardas. E identificamos também que a principal causa era ocasionada por violência doméstica seja por ex-cônjuge ou cônjuge atual”, detalhou.
Helyson orientou o projeto através de uma parceria da UFC com a EEMTI Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, através do Laboratório de Farmacologia de Venenos e Toxinas (LAFAVET), que oferta bolsas de iniciação científica a alunos na área de pesquisas. A parceria também tem apoio do projeto de extensão Associação Brasileira de Jovens Cientistas.
A equipe responsável espera, agora, que os dados possam auxiliar o poder público no combate ao feminicídio. “A ideia desse trabalho em si era justamente já pensar nas políticas públicas de aplicação, que é justamente nosso objetivo, que essa aplicação seja bem sucedida”, destacou o orientador.
“Essa plataforma pode sim facilitar esse processo e fazer com que esse sistema seja bem aplicado justamente na seleção de áreas, por exemplo, que apresentem esses índices maiores de feminicídio, como o caso da construção de novas delegacias de apoio à mulher, ou até mesmo do projeto Casa da Mulher, que também serve justamente para evitar e prevenir feminicídios”, reforçou Helyson.
Premiação na FEBRACE
Estudante de escola pública do CE vai representar o Brasil nos EUA com projeto de IA que mapeia feminicídios.
No último dia 20, a FEBRACE anunciou os projetos vencedores do 1º lugar nas categorias científicas e os estudantes selecionados para representar o Brasil na ISEF 2026. A premiação foi realizada na Universidade de São Paulo (USP), encerrando a 24ª edição da Feira, que reuniu 297 projetos finalistas de todo o país.
Conforme a organização, os trabalhos premiados refletem tendências claras da nova geração de jovens cientistas brasileiros — como o uso de inteligência artificial, soluções sustentáveis baseadas em resíduos, alternativas naturais a insumos industriais, tecnologias para saúde e análises de dados aplicadas a problemas sociais.
“A FEBRACE revela uma geração de jovens que não apenas compreende os problemas do mundo atual, mas propõe soluções consistentes, com base científica e impacto real. É um retrato do potencial transformador da educação quando aliada à investigação e à criatividade”, disse a coordenadora geral da FEBRACE, professora Roseli de Deus Lopes.
Os projetos vencedores passaram por avaliação de especialistas, com base em critérios como rigor científico, originalidade e potencial de impacto. Os estudantes que conquistaram o 1º lugar nas categorias gerais receberam medalhas, certificados digitais, um troféu e o convite para publicar seus trabalhos no Scientia Prima, periódico da ABRIC.
Já os nove projetos selecionados para a ISEF 2026 representarão o Brasil em Phoenix entre os dias 9 e 15 de maio deste ano.
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