'Alvejada à curta distância': Polícia indicia homem preso por feminicídio contra jovem em bar no CE

 

Foto: Reprodução.   



A Polícia Civil do Ceará (PCCE) indiciou José Arimatéia Felipe pelo assassinato da adolescente Ana Kévile Nogueira Batista. A jovem de 17 anos foi morta a tiros em um bar na cidade de Deputado Irapuan Pinheiro, Interior do Ceará, depois de recusar o assédio do investigado.

A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso a documentos oficiais nos quais constam que o cenário do crime era compatível com uma "execução imediata após discussão ocorrida no interior do estabelecimento, sendo constatadas lesões provocadas por disparo de arma de fogo, manchas de sangue e demais vestígios relacionados à dinâmica homicida".

A perícia feita no local do crime apontou que a vítima foi alvejada à curta distância, "sem possibilidade de reação ou defesa, havendo compatibilidade entre os vestígios técnicos encontrados e a narrativa apresentada pelas testemunhas presenciais".

"As investigações ainda demonstraram que o crime foi motivado pela inconformidade do investigado diante da rejeição sofrida pela vítima, a qual recusou manter qualquer relação ou aproximação afetiva com o autor, circunstância que evidencia contexto de violência baseada em gênero e menosprezo à condição de mulher, elementos caracterizadores do feminicídio".

O próximo passo é o Ministério Público do Ceará (MPCE) decidir se irá denunciar ou não José Arimatéia. Enquanto isso, o homem segue preso preventivamente.

Quando interrogado na delegacia, José Arimatéia decidiu permanecer em silêncio. A defesa do suspeito não foi localizada pela reportagem e este espaço segue em aberto para possíveis manifestações futuras.

CRIME PREMEDITADO?

A ação criminosa que vitimou a adolescente Ana Kévile Nogueira Batista conta com características de um crime premeditado.

José Arimateia teria oferecido R$ 500 em troca de relação sexual com a vítima. O homem saiu do bar após uma discussão e retornou ao local já em posse de uma arma de fogo. 

De início, logo quando a vítima não correspondeu ao assédio, houve um princípio de tumulto no local e populares exigiram que o homem saísse do estabelecimento. Testemunhas contam que, poucos minutos depois, o homem retornou ao local já armado.

Na versão de um popular que estava no local, Arimatéia já sacou a arma de fogo logo quando desceu da motocicleta. Ele ainda teria ido até à mesa da adolescente, que chegou a pedir novamente que ele se retirasse. 

José foi levado à audiência de custódia nesta quarta-feira (29) e "o cumprimento da prisão foi homologado pelo 2º Núcleo Regional de Custódia e das Garantias, com sede em Iguatu".

Após se aproximar da adolescente com investidas inconvenientes, de forma insistente, “chegando a tocar sua coxa”, conforme o registro, ele ofereceu a quantia, “sendo prontamente repreendido”.

FEMINICÍDIO

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) também se manifestou com indignação sobre o crime de feminicídio, chamando atenção para o grave problema enfrentado pela sociedade.

Em sua declaração, o Unicef afirma que a morte da adolescente não se trata de um acidente ou um crime isolado, e sim "a expressão brutal da misoginia estrutural que permeia a sociedade brasileira, alimentando a violência de gênero e a cultura de impunidade".

"O feminicídio de Ana Kévile é um lembrete doloroso de que a violência contra meninas e mulheres não é um problema delas, mas um problema de toda a sociedade, que exige respostas urgentes e coordenadas", diz o texto.

O órgão chamou atenção, ainda, para os índices da violência de gênero, destacando dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública: quatro mulheres são vítimas de feminicídio, em média, por dia no Brasil. Além disso, reforça como a violência afeta, direta e indiretamente, as famílias das vítimas.

O crime foi registrado no último sábado (25), na cidade de Deputado Irapuan Pinheiro.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o suspeito é investigado pelo crime de feminicídio e, na ocasião da detenção, ele foi também autuado por porte ilegal de arma de fogo.

A tragédia gerou manifestações da comunidade e entre autoridades da região nas redes sociais.

"A morte prematura e violenta de Ana Kevile não é um fato isolado, mas o reflexo de uma sociedade ainda marcada pela misoginia e pelo sentimento de posse sobre a vida das mulheres", disse o prefeito Gildecarlos Pinheiro.



(Diário do Nordeste)

Postagens mais visitadas do mês