Ana Clara de Oliveira, de 21 anos, ainda sente medo. “Muito medo mesmo, de verdade”, ela conta, e chora, quando cita as dores de ter as duas mãos cortadas e a também a relação abusiva que viveu por quase dois anos com Ronivaldo Rocha dos Santos, 40, o homem que a mandou matar.
O executor do crime, ocorrido em Quixeramobim, na madrugada de 1º de maio deste ano, foi o irmão dele, Evangelista Rocha dos Santos, 34. Chora quando descreve ter imaginado a presença deles na janela da UTI. “Roni” ameaçava matar seus familiares se ela a deixasse.
Os golpes desferidos pelo ex-cunhado foram com uma foice. O primeiro lhe arrancou a mão direita totalmente, recorda-se. Mas Ana Clara impressiona pela coragem e lucidez que teve no momento mais crítico da violência sofrida. Descreve que se fingiu de morta, já sentia o corpo sangrar em vários cortes. Conseguiu pedir ajuda de um vizinho. Escapou.
Agora em recuperação no Instituto Doutor José Frota, em Fortaleza, ela vive a expectativa de receber alta, prevista para a próxima semana. Informação dada a ela nesta segunda-feira, 18, por um dos seus cirurgiões.
As mãos reimplantadas evoluem, alguns dedos já mexem. Será um ano ainda de recuperação. Ela conta tudo em muitos detalhes em entrevista ao O POVO.
Leia entrevista na íntegra
O POVO - Como é que você está se sentindo neste momento?
Ana Clara -
Graças a Deus eu tô me sentindo bem. Apesar do ocorrido, eu tô me
sentindo bem no momento, sabe? Não tô sentindo dores. Os médicos já me
confortaram muito, me ajudaram bastante. E só em eu estar movimentando
as minhas mãos já é um grande passo pra minha nova jornada. Porque eu
renasci, estou vivendo uma nova vida, uma nova fase.
OP - Você tem toda a cena daquele momento na sua cabeça?
Ana Clara - Sim, tudo. Infelizmente, sim. Eu acho que é algo que eu nunca vou esquecer. Foi o que aconteceu, infelizmente.
OP - Você em nenhum
momento ficou desacordada? Falaram até que na ambulância você vinha
conversando, você que passou a senha para o policial abrir seu celular?
Ana Clara -
Inclusive, quando a gente estava vindo, eu estava com tanta sede que
até água eu pedi, mas todo momento consciente até a chegada aqui. Nenhum
momento eu dormi. Até mesmo quando eu estava já aqui no hospital, antes
de ir pra cirurgia, eu estava consciente.
OP - Naquela noite, o que levou a briga sua com o Ronivaldo chegar ao ponto de você sofrer aquela agressão?
Ana Clara -
Anteriormente, dias atrás, já estava tendo muitas brigas. Eu já tinha
até falado que era melhor cada um viver a sua vida, porém ele nunca
aceitou. Ele sempre ameaçava, falava que se um dia eu deixasse ele,
aparecesse com outra pessoa, ele mandava matar a minha família. E
depois, por último, iria ser eu.
OP - Ele ameaçou também a sua mãe e seu padrasto?
Ana Clara -
Exatamente, que iria matar a gente. Naquele momento, estava tudo de boa
mais cedo. A gente foi para a casa de um amigo dele, estava normal. A
gente acordou, não tinha nada de briga. Porque ele bom era uma coisa e
bêbado já era outra. Ele se transformava que nem eu conhecia ele. Na
casa desse amigo a gente bebeu. Eu não tenho costume de beber, eu bebi,
mas socialmente, muito pouco. De lá a gente foi para um determinado
local lá em Quixeramobim, um restaurante com música ao vivo. E lá eu
acho que tomei uma dose de vinho e quando vi que a bebida estava me
pegando, pedi para ele me deixar em casa.
OP - Que horas era isso?
Ana Clara -
Acho que ia dar meia-noite. A gente saiu cedo de casa, acho que era de
manhã ainda. Era a véspera do feriado, na quinta (dia 30). A gente saiu
para almoçar, era muito difícil a gente comer em casa. Desde 10 horas
quando acordou que a gente estava pela rua. Era mais ou menos meia-noite
quando a gente entrou no carro, ele já foi me humilhando, me
esculhambando, falando mal, tentando me diminuir.
OP - Mas o que levou a isso?
Ana Clara -
É a bebida, loucura da cabeça dele mesmo, só pelo fato de eu chamar
para ir para casa. Porque ele queria que eu passasse noite e dia com ele
nos cantos e eu já estava cansada, queria ir para casa descansar e não
teria problema nenhum dele me deixar em casa e sair. Porque outras vezes
aconteceu dele me deixar em casa e sair. Então, eu já tinha percebido
que eu não estava vivendo mais um relacionamento. Porque o certo era a
gente chegar em casa, subir, dormir e pronto.
OP - E o que foi que aumentou a temperatura dessa briga?
Ana Clara -
Porque eu disse que não iria sair. Eu disse que iria para casa, que ele
fosse me deixar em casa. Então, ele foi me esculhambar. Porque a vida
dele era me trair. Eu acho que ele pensava que eu também iria fazer a
mesma coisa com ele, que eu iria trair ele também. Ele já foi me
acusando, dizendo que eu iria para casa porque eu ia trair ele, falando
várias coisas, tentando me diminuir. Querendo me atingir para eu, por
fim da força, mudar a minha decisão e ir com ele para onde ele queria
ir.
OP - Naquele dia, você chegou a dizer que queria acabar o relacionamento?
Ana Clara -
Sim, sim. É tanto que as gravações da câmera pegam eu falando que não
queria mais ele lá em casa. Que não queria mais, que não dava mais
certo, que o amor já estava acabando, que a química já estava acabando,
que eu não sentia mais tanto amor por ele como eu sentia no início.
OP - O que levou você a precisar a jogar uma pedra no carro dele que quebrou o para-brisa?
Ana Clara -
Porque, dentro do carro ele puxou meu cabelo e eu disse: “Se você bater
em mim, eu vou atingir o seu carro”. Porque imaginei, “ele não vai
bater em mim porque vai ter medo de eu atingir o carro dele, então vai
ter prejuízo”. Aí ele puxou meus cabelos, desci do carro, peguei a pedra
e joguei. E aí ele fala: “Olha o que é que tu fez no meu carro?”. Eu
falei assim: “Não entre aqui em casa, não quero mais você aqui, vá
embora”. E aí ele corre atrás de mim, tem um momento dos vídeos que ele
corre atrás de mim. E eu corro até o final da rua e eu vejo que ele dá
ré e vai embora.
OP - Você correu em direção à sua casa?
Ana Clara - Não, para o lado contrário. E ele corre também.
OP - Mas aí ele desiste e volta para o carro, sai para buscar o irmão dele, o Evangelista?
Ana Clara -
Exatamente. E aí vejo que ele saiu. Porque sempre que ele sai, ele
nunca tem costume de voltar para casa. Ele pode até voltar pela manhã.
OP - Ele foi embora e já voltou com o Evangelista?
Ana Clara -
Quando cheguei em casa, travei o portão, porque ele tinha um controle,
acesso ao portão grande. Então travei o portão e fechei a porta de baixo
na chave. E quando subo, as portas são de vidro, mesmo assim eu tranco
as portas de vidro e tranco a janela. Quando eu estou deitada, percebo
que algo estranho tava acontecendo lá fora porque eu escutei o grito, o
irmão dele me chamando: “Ana Clara, Ana Clara”. Aí eu pego e olho na
brecha. Só que dá uma vontade de ir e não ir, mas ele chamando, eu
peguei e fui.
OP - Você não chega a ver a foice nesse momento?
Ana Clara -
Não, porque a todo momento ele escondia. Eu disse “O que é,
Evangelista?”. Aí comecei a chorar e me justificar para ele. E ele “abra
aqui, por que você fez aquilo no carro do meu irmão?”. Eu já imaginava
(o risco), porque ele gostava de intimidar as pessoas. Ele poderia muito
bem pegar uma faca ali e fazer alguma coisa. Eu disse “O que é,
Evangelista, que tu quer?”. Ele disse “Abra aqui a janela”. E mesmo eu
falando que não ia abrir, ele disse que quebrava a janela e iria entrar.
OP - Ele quebrou?
Ana Clara -
Não, eu tive que abrir, né? Do que eu abri, ele já foi pulando a
janela. Ele pulou, eu coloquei assim meu braço direito (faz o gesto de
que tentou se proteger) e já foi o primeiro golpe. A mão já caiu no
chão.
OP - No primeiro golpe, sua mão já caiu?
Ana Clara -
Já caiu no chão. Aí eu corro pro meu quarto. Do que corri pro quarto,
tentei fechar a porta, mas não consegui. Porque eu não tinha força. Só
que essa mão (esquerda) ainda estava intacta, mas eu tentei. Só que a
força do homem pra mulher é maior. Ele conseguiu entrar no quarto e já
foi tacando vários golpes no meu braço (esquerdo), nas minhas costas.
OP - Empurrando a porta e golpeando?
Ana Clara -
Isso. Aí ele conseguiu entrar no quarto. Eu fiquei meio assim no canto,
ele golpeou a minha perna, os meus braços e eu pedia “por favor”. Teve
um momento que eu até disse que dava o meu celular para ele, mas que ele
por favor parasse de fazer aquilo comigo, que estava doendo bastante.
Bastante mesmo, de verdade (Ana Clara passa a chorar quando cita esse
momento). Foi no momento que eu disse “Tu quer me matar? Pois me mata
então”. E ele continuou. Aí eu me decaí, me fiz de morta. Me fiz de
morta mesmo.
OP - Tudo durou muito pouco tempo, menos de cinco minutos?
Ana Clara - Foi muito rápido, muito rápido mesmo.
OP - Quase não teve diálogo, ele já estava intencionado a fazer isso?
Ana Clara -
Sim. Acho que o Ronivaldo saiu lá de casa já na intenção mesmo de
buscar ele (Evangelista) para me matar. É tanto que ele fica em cima do
capô do carro dizendo “mata essa vagabunda, mata essa vagabunda”. Quando
eu me fiz de morta, ele (Evangelista) imaginou “ela morreu, eu vou
sair”. Quando ele viu que eu me decaí, me fiz de morta, prendi a minha
respiração, ele saiu. E aí quando eu vi que ele saiu, comecei a gritar.
OP - Você calculou um tempo e ouviu o barulho do carro indo embora?
Ana Clara -
Sim, sim. Porque estava com problema no carro e dava tipo uma zoada, um
piado. Eu imaginei que ele já tivesse ido, então comecei a gritar por
socorro. Quando cheguei em casa, vi que meu vizinho estava em casa
porque o carro dele estava fora. Comecei a pedir por socorro. “Vizinho,
socorro. O irmão do meu ex veio aqui e estou cheio de sangue. Liga pra
polícia, liga pro Samu por favor”. Fiquei chorando, gritando. A polícia
chegou, não demorou muito tempo. A polícia chegou, perguntou se eu
estava só. Eu disse que estava só e não tinha como eu abrir a porta no
momento. Eles arrombaram a porta pequena e conseguiram subir. Eles
subiram, pularam a janela, e a chave eu sempre colocava no bolso do meu
short ou debaixo do travesseiro quando eu entrava dentro de casa. Nunca
deixava a chave na porta. E aí os policiais pegaram a chave que estava
no meu bolso e abriram. E imediatamente eles só reforçaram a ligação do
Samu.
OP - Onde você estava quando os policiais chegaram?
Ana Clara -
Eu me arrastei até o corredor. Porque o quarto é pertinho do corredor.
Já no fim da casa. Me arrastei do quarto pro corredor e do corredor dava
para ver a janela, dava pra ver tudo e eu totalmente decaída. As duas
mãos no chão. Depois eu até vi as fotos. Eu me senti muito mal quando vi
as fotos. E esse braço aqui já não tinha mais força. O lado esquerdo
não tinha força para nada e muito sangue.
OP - Você lembra como fez para se arrastar?
Ana Clara -
Eu não sei o que foi que eu fiz, só sei que eu consegui ir até o
corredor. Quando eles chegaram lá, pedi que pegassem meu celular e
ligassem pro meu padrastro. Meu padrasto não atendeu, mas quando ligaram
para minha mãe, imediatamente ele atendeu. O Samu chegou muito rápido.
Do que eles chegaram, fizeram os primeiros socorros. Quase que a maca
não passa na escada porque era muito estreito e eu com dor, né? Porque o
efeito pior já tinha passado.
OP - Você estava acordada?
Ana Clara -
Acordada, em nenhum momento eu dormi. Acho que se eu tiver desmaiado,
foi muito pouco tempo. Eu não lembro de ter dormido, de ter desmaiado, a
todo momento eu estava acordada.
OP - Na viagem de ambulância para Fortaleza você veio acordada?
Ana Clara -
Sim, tudo acordado. Até mesmo quando eu cheguei no (hospital regional
do) Sertão Central, lá eles aplicaram umas bolsas de sangue para eu
chegar até aqui. Ligaram para o helicóptero, só que estava chovendo
muito. Então a gente teve que vir por terra mesmo. Até a chegada aqui eu
vinha acordada, conversando e tudo. Dentro, meu padrasto vinha com medo
também. Acho que ele vinha conversando comigo a todo momento para eu
não dormir e ser pior. Mas em nenhum momento eu dormi.
OP - Chegaram a lhe dizer quantos cortes você sofreu? Você lembra das partes do corpo que foi golpeada?
Ana Clara - Não, não. No rosto, pescoço, um pouco aqui (atrás da orelha), no queixo, na perna, na virilha. E nas costas tem vários.
OP - O Roni, como é mencionado no inquérito e na denúncia, era agiota?
Ana Clara - Sim, agiota.
OP - Você sabia como ele trabalhava, se ele era violento também na atividade?
Ana Clara -
Quando ele bebia tentava intimidar as pessoas, falava um pouco
grosseiro com as pessoas, entendeu? Mas muita coisa ele me escondia pelo
fato de eu estudar pra polícia, de ter amizade com o pessoal da
polícia. Muita coisa ele me escondia.
OP - Você estava estudando?
Ana Clara -
Isso. Estava estudando. É tanto que ele tinha até deixado o caderno
dele com as anotações. E no mesmo momento que a polícia chegou, falei
pra polícia onde tava para eles pegarem. E ele era bastante agressivo
quando bebia. Com qualquer pessoa. Gostava de humilhar, de intimidar as
pessoas. Mas quando ele bebia. Quando ele estava bom, nem abria a boca.
OP - Você o conheceu quando?
Ana Clara -
Eu conheci ele em outubro de 2024. Ele frequentava lá o comércio do meu
padrasto. Num momento eu não queria, sabe? Ele insistiu, ficava
conversando comigo e foi até o momento em que eu decidi pra gente se
conhecer. Mas eu conheci ele lá e em nenhum momento eu sabia do
histórico dele. E não sabia que ele era uma pessoa agressiva. Até
porque, no início, ele me tratava como uma princesa. E um ano depois,
quando ele foi cobrar, intimidar uma cliente, ela estava bêbada e
grávida. Eu fui falar para ele que não adiantava ele cobrar ela porque
ele estava bêbado e ela também e que não iria resolver nada no momento.
OP - Mas ele a agrediu?
Ana Clara -
Não, ele não agrediu, mas ela ameaçou que se ele batesse nela… Na
verdade, ele quis dar um tapa nela e eu fechei o vidro do carro e disse
que ali ele não faria nada com ela, porque nem eu iria me prejudicar e
também no momento eu não iria deixar ele se prejudicar por causa disso.
OP - Nessa época, ele já tinha agredido você em algum momento?
Ana Clara - Não, nunca te agredido.
OP - E quando foi a primeira vez?
Ana Clara -
Foi nesse dia. Ele deu um tapa na minha boca. E tinha um homem atrás no
carro que não fez simplesmente nada. Eu não lembro o nome dele. Ele deu
um tapa na minha cara e vários socos no meu braço esquerdo. Eu chorava e
falava “Por que você tá fazendo isso? O que é que eu fiz com você?”. E
ele “Tu fica se metendo nas minhas coisas, não quero que ninguém se
meta, não”. Eu disse “Tudo bem, eu não sabia”. E me esculhambava.
Chamava de porra, me esculhambava, me humilhava. Então, eu pedi que ele
fosse me deixar até a casa do meu padrasto.
OP - Você pensou em acabar o namoro nesse dia?
Ana Clara - Sim.
OP - Mas verbalizou pra ele?
Ana Clara -
Sim, falei para ele que não queria. E no outro dia ele bom, ligou para
mim, pediu mil desculpas, disse que estava fora de si, que tinha bebido
muito, que eu tinha me metido em algo dele, que não precisava eu me
meter, que ele mesmo resolvia. Então, eu resolvi dar uma nova chance
para ele, apesar de tudo.
OP
- E quando é que vem o segundo momento de agressão? Porque a informação
que tenho é que teriam sido quatro ou cinco vezes pelo menos.
Ana Clara -
Sim. Uma das outras vezes foi num restaurante. A gente brigou, todo
mundo viu. A gente discutiu, ele deu um tapa na minha cara e eu me
defendi. Aí ele quebra meu celular. Ele tomou o meu celular porque eu
estava mexendo e dizendo pra minha mãe que eu estava no restaurante, que
estava tudo bem e que já eu iria para casa. Porque sempre que eu saía a
minha mãe se preocupava. No momento lá do restaurante ele me agrediu,
bateu em mim e ficou me esculhambando e ninguém fez nada. O dono do
restaurante, graças a Deus, foi quem amenizou mais a situação.
OP - Havia uma dependência sua para continuar nessa relação já abusiva?
Ana Clara -
Sim, eu tinha uma dependência emocional. Eu gostava dele e também ele
ameaçava que se eu deixasse ele, faria algo com a minha família. Então,
às vezes, eu me sentia na obrigação de viver naquele relacionamento. É
tanto que num dia eu cheguei a ligar pra polícia, e lá mesmo a gente fez
um acordo. Que ele me dava um novo celular e ele iria viver a vida dele
e me deixava em paz.
OP - Nesse dia você chegou em casa agredida e usou o celular da sua mãe para chamar a polícia?
Ana Clara -
Eu cheguei na casa do meu padrasto e liguei do telefone da minha mãe
porque o meu tinha sido quebrado. A polícia foi aonde eu estava e
fizeram buscas atrás dele. A gente chegou lá no Batalhão e eu senti pena
porque eu gostava dele. Infelizmente, eu senti pena e eu não queria
prejudicar ele. Eu apenas queria que ele fosse viver a vida dele,
deixasse eu viver a minha vida em paz e me desse um novo celular, porque
no momento eu não estava com condições de comprar um novo.
OP - Isso se repetiu por mais vezes?
Ana Clara - Não. Aí ele parou, as confusões pararam. Deu uma pausa nas confusões, estava tudo bem.
OP - Isso foi este ano?
Ana Clara -
Isso da polícia foi fim do ano passado. Estava tudo bem, sem brigas
mesmo. A gente sempre passava um, dois dias sem nos ver, porque eu não
queria. Ele me mandava vários áudios de visualização única, me
ameaçando, falando que ia fazer isso com a minha família, se eu não
voltasse para ele. Como eu gostava dele e eu tinha a dependência
emocional, acabava voltando para ele. Ele dizia que ia matar meus
familiares se eu o deixasse.
OP - Você chegou a considerar que isso realmente poderia acontecer?
Ana Clara -
Sim, porque eu sabia que ele tinha dinheiro, ele teria coragem de
mandar fazer e pelo irmão gostar de intimidar as pessoas, eu sabia que o
irmão tinha coragem. Ele sempre falava para mim: “Olha, o Evangelista
hoje deu um tapa em fulano, Evangelista hoje deu um murro em fulano”.
Então imaginei “Ele tem coragem de fazer”. Eu acabava acreditando. E eu
acho que no momento lá voltando, no dia que ocorreu isso, quando ele viu
que eu realmente não queria mais ele, ele quis tirar a minha vida
porque percebeu que eu não queria mais ele.
OP
- No vídeo, Ronivaldo dá a entender que não queria que matasse (depois
do ocorrido), só que a cena anterior (ele ordenando que o irmão matasse)
é mais definitiva.
Ana Clara - Exatamente.
Mas como ele viu que eu não queria mais ele, eu já tinha relatado que
na próxima briga, no próximo episódio, que eu iria dar a última chance,
que realmente a chance iria ser essa. Não sei o que passou na cabeça
dele. E por eu ter jogado a pedra no carro dele, ter quebrado, ele
disse: “Não, eu vou tirar a vida dela”. Porque ele fala para me matar,
só que depois parece que ele se arrepende.
OP - Sua mãe e seu padrasto já tinham alertado você sobre a relação?
Ana Clara -
Sim, a minha mãe não gostava dele. Chamava pra eu ir morar com ela. O
meu padrasto também falava a mesma coisa. Mas ele disse que não se metia
tanto porque via que não adiantava, que éramos dois adultos.
OP - Ele já tinha sido preso por alguma coisa?
Ana Clara -
Já, sim. Parece que já foi pego com arma, por agressão doméstica
também. (Os registros anteriores de Ronivaldo na polícia apontam, em
2023, para um caso de violência doméstica, e em 2019, acusações de crime
contra a economia popular e porte ilegal de arma).
OP - Ele tem filhos?
Ana Clara - Ele tem oito filhos com várias mulheres. Em relação a isso não tenho o que falar, ele cuidava bem dos filhos dele.
OP - Você sabe se houve caso de agressão a alguma dessas ex-mulheres?
Ana Clara - Sim.
OP - Ele falava disso?
Ana Clara -
Ele nunca chegou a contar. Mas elas mesmas falavam pra mim. Algumas
moram em Fortaleza, algumas em Quixeramobim. Uma é num distrito de
Quixeramobim. São cinco ou seis mulheres.
OP
- Houve o episódio em que seu padrasto, e seu padrinho também como
testemunha, ouviram ele comentando que um dia acabaria cortando suas
mãos. Você soube disso antes?
Ana Clara - Não, só soube depois disso tudo ter acontecido.
OP - Por que você acha que ele falou de cortar suas mãos especificamente?
Ana Clara -
Eu também não entendo. As nossas brigas eram mais constantes porque ele
falava que eu gastava muito. Porque eu gostava de ir pro salão me
ajeitar, gostava de comprar roupas. Eu sou uma mulher muito vaidosa,
gostava muito de me arrumar. E, no início, ele dava de boa, só que
ultimamente estava passando muito na cara que estava me dando aquilo,
que estava me dando isso. Chegou um momento em que por tudo ele brigava,
até por algo que comprava para dentro de casa ele estava brigando.
OP - A linha principal das brigas era ciúme?
Ana Clara -
Sim, tudo ciúmes. Não deixava mais eu estudar. Eu só saia de casa com
ele. Não deixava mais eu ir pra academia. Iria fazer um mês que eu tinha
voltado pra academia. Por isso que as brigas estavam vindo todos os
dias, porque eu tinha começado a ir pra academia.
OP - Você ainda tem medo da figura dele presente?
Ana Clara -
Muito, muito medo. A ficha ainda não caiu 100%, de tudo. Eu acho que
aos poucos vai caindo. Mas eu tenho muito medo dele, muito medo mesmo,
de verdade (Ana Clara volta a chorar). E o que eu mais quero nesse
momento é justiça, porque hoje está fazendo exatamente 18 dias que eu
estou aqui. E o que eu mais quero é justiça. Você não tem noção do
quanto eu fiquei feliz quando eu vi as minhas mãos mexendo, de quando eu
vi que eu tinha apoio da minha família, de quando eu vi que eu tinha
apoio de muita gente. Porque hoje muita gente ora por mim, então eu
tenho muito medo dele, muito medo, de verdade, muito medo. Eu não
consigo imaginar sair fora e ver esse homem. Eu não consigo nem olhar
pra cara desse homem, porque eu tenho um nojo dele e do irmão.
Infelizmente, eu tenho nojo e eu tenho muito medo e eu quero muito que a
justiça seja feita. (O repórter sugere uma pausa para que Ana Clara se
recupere do choro e beba um pouco de água. A cuidadora a ajuda neste
momento). Mas eu tenho muito medo. É tanto que nos primeiros dias, para
mim, eu tava sentindo que eu tava com ele. Estava dormindo à base de
remédio.
OP - Você sentiu a presença dele aqui?
Ana Clara -
Sim. A janela aqui estava sem fumê, só um lado que tinha, e pra mim eu
estava vendo ele ali em cima do telhado com a foice, ele e o irmão. Pra
mim eu estava vendo alguma coisa.
OP - E isso já acalmou mais?
Ana Clara - Sim, já acalmou bastante. Eu tô dormindo agora sem precisar de remédio.
OP - Já consegue ficar sentada.
Ana Clara -
Sim, consigo ficar sentada. Mas, quando eu estava na UTI, pra mim eu
sentia que ele estava ali. É tanto que eu comentava com as técnicas de
enfermagem, comentava com a psicóloga que me acompanhava lá. Muito medo.
OP - Você estava estudando para ser policial. Ainda quer ser?
Ana Clara
- Sim, eu quero ser, é o meu sonho. Sim, ainda é possível, até porque
possa ser que os meus movimentos voltem 100%, como possa ser que eu
tenha algumas sequelas, mas não vai me atrapalhar. O doutor mesmo fala,
que eu vou conseguir trabalhar, vou conseguir fazer meus afazeres, não
vai me atrapalhar. Porém, é algo que é daqui a seis meses a um ano. Vai
precisar muito de fisioterapia. É um processo.
OP
- O POVO revelou a história que você está conseguindo usar o celular
com o pé direito. A gente apurou que você está surpreendendo a equipe
toda com essa sua capacidade de transpor a situação com essa habilidade.
(Ana Clara topa mostrar como faz, desde destravar o celular, abrir a
tela e acessar mensagens em redes sociais)
Ana Clara -
É um ritual, né? Tia (como chama a cuidadora), desce mais aqui a
pulseirinha (de identificação da paciente, no tornozelo direito). É um
ritual, né? A gente coloca essa almofada, coloca a luva (de látex) que é
para o celular não escorregar. Coloco a senha e vou me comunicando com o
pessoal (e vai movendo a tela com o dedão do pé). WhatsApp, Instagram
aqui. Vejo os stories do pessoal.
OP - Você tá se comunicando com seus amigos? Fazendo chamadas de vídeo?
Ana Clara -
Sim. Às vezes, eu não consigo escutar muito bem o áudio, mas aí a tia
pega o celular e encosta mais perto do ouvido. Às vezes, eu mando o
áudio, como tá longe, eles não conseguem escutar muito bem. A tia traz o
celular, já pegou até um pouco de prática. Meu padrasto também já pegou
um pouco de prática, disse que não sabe mexer nesses celulares
modernos, mas ele tenta.
OP - Isso também lhe ajuda, lhe motiva, lhe anima?
Ana Clara -
Sim, sim. Aí às vezes ele fica até falando: “Ah, você briga demais
comigo”, porque eu falo uma coisa, ele entende outra, faz outra. Mas eu
faço praticamente quase tudo com o pé.
OP - Todo dia fala com alguém conhecido?
Ana Clara -
Todo dia, toda hora. Olho rede social, status, vídeos. Eu posto,
reposto. Não estou repostando tanto porque é tanta mensagem que eu não
consigo dar conta. Mas a minha base está sendo o pé. O meu braço direito
é a tia Valéria, que cuida de mim, e meu padrasto.
OP - Já estimaram em quanto tempo você vai poder mexer o celular com a mão?
Ana Clara -
Ainda não. Eu acho que no decorrer das terapias é que eles vão me falar
alguma coisa. Mas a fisioterapeuta fala que eu, como estou muito
deitada, tenho que fazer algum movimento nessa minha perna (direita),
apesar de ela não ter sido agredida, não ter nenhuma lesão. Ela diz para
eu ficar movimentando o celular com o pé. Ela até gostou da ideia. Tá
faltando só o fone de ouvido, mas vai dar certo.
OP - Tem um sorriso aí no seu rosto. É uma coisa que já te traz animação. Acaba sendo uma distração no meio desse caos todo.
Ana Clara -
Eu fico olhando meu celular, vendo as coisas e o tempo vai passando.
Distrai. Não fico pensando em tanta besteira, entendeu? Converso com
meus amigos.
OP - Você acompanha o noticiário sobre o seu caso?
Ana Clara - Se eu já acompanhei? Nem tudo, mas eu cheguei a ver. Mas tem muita coisa que eu não vi ainda.
OP - Você vai vai querer ver?
Ana Clara - Não. Porque eu sei que vai me machucar muito.
OP
- O que é que você vislumbra da Ana Clara de agora em diante? Foi quase
um ponto final, mas lhe trouxe uma esperança muito grande com o
reimplante.
Ana Clara - A Clara antiga para
mim não existe mais, agora é uma nova Clara, é um novo recomeço. E eu
quero fazer tudo diferente agora. Quando eu sair daqui quero fazer tudo
diferente. É uma nova Ana Clara, eu tenho muitos planos na minha cabeça.
Quero que os feminicídios no Ceará e no mundo inteiro diminuam. Eu sou a
voz da mulher agora, pelo que eu tô passando, pelo que está
acontecendo. Muitas coisas vão acontecer, mas o que eu espero de mim é
que eu vá em frente, que eu vá à luta. Eu tô aqui para lutar pelas
mulheres.
OP - Como é que você pretende fazer isso?
Ana Clara -
Ainda não tenho em mente como eu pretendo fazer isso, mas quando eu
sair daqui vou precisar de alguém que seja meu braço direito. Mas eu
quero sentar muito com alguns colegas, da polícia, da promotoria da
mulher, com advogados, e criar algum projeto. Até porque a gente quer a
delegacia da mulher na minha cidade, em Quixeramobim. Faz tempo que a
gente está atrás, possa ser que agora a gente consiga trazer. Eu não
parei ainda para pensar como eu quero fazer, mas tem algo assim na minha
mente, eu quero criar um projeto, quero que isso cresça. Quero que as
mulheres sejam mais respeitadas, quero que a mulher seja vista e não
importa a roupa que ela esteja. Até minhas vestimentas ele queria que eu
mudasse. Eu comprei uma roupa para ir pra academia, foi até uma briga
nesse dia. Perguntou se eu ia pra festa. Meu rosto está um pouco cheio
de mancha e eu sempre gosto de sair maquiada. Eu estava passando um
corretivo no meu rosto para ir pra academia. Ele não disse nada dentro
do carro, mas assim que eu desci na academia, ele perguntou se eu iria
para uma festa, que estava muito arrumada. Eu disse que sempre vim pra
academia maquiada e não iria deixar de vir maquiada por conta dele. Mas
sei que vou ajudar as mulheres e que eu quero criar muitos projetos em
relação ao feminicídio.
OP - Já tem uma previsão informada de quando vá deixar o hospital?
Ana Clara -
Talvez até a próxima semana eu tenha alta. O doutor Valberto (Porto
Filho) veio hoje e falou. Foi um dos que me operaram. Já vai tirar esse
curativo (da direita) e colocar a tipoia que é removível. Será nessa
semana. A perna esquerda tá com gesso (que foi operada no último dia
11). No sábado, 9, foi esse (a mão esquerda passou por nova intervenção,
por conta de problemas vasculares).
OP - A mão esquerda, que ficou parcialmente decepada, teve mais problemas.
Ana Clara -
Isso. Ele disse que vai passar por nova cirurgia do lado esquerdo, mas é
mais lá pra frente, que não é necessário agora. Mas disse que pode até
tirar também na próxima semana. Depende de avaliação. A direita está
muito boa a recuperação. Eles tiraram um pouco de pele do meu pé e
colocaram na minha mão (esquerda). Acho que pele e vaso. A perna
esquerda, acho que daqui a duas ou três semanas eu tire o gesso e
coloque a botinha, que até já compramos. Só que após a alta a gente não
vai para Quixeramobim, a gente vai ficar aqui em Fortaleza. Até a gente
ver que já dá pra ir. Até porque eu vou fazer fisioterapia com uma
profissional que é especialista em mãos.
OP
- O que você diz para uma mulher que está sofrendo um processo de
violência como o que você passou, que é gradativo e pode chegar a um
ápice trágico?
Ana Clara - Denuncie.
Procure ajuda. Procure a polícia, procure um psicólogo, procure um
psiquiatra, denuncie e se saia, porque pode acontecer igual aconteceu
comigo e ou até mesmo ela morrer, que é o que a gente não quer. Mas eu
não morri porque Deus não quis, mas todo mundo acreditava que eu não
iria escapar. Mas a minha fé foi tão grande que hoje eu estou aqui para
contar o meu testemunho. Denuncie, se saia, procure ajuda. Nenhuma
mulher merece passar por isso.



