Cearense é a única mulher na delegação do Brasil em Olimpíada de Astronomia no Vietnã

 




A cearense Biatriz Soares, de 17 anos, será a única mulher a representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (IOAA), prevista para acontecer entre setembro e outubro deste ano, na cidade de Hanoi, no Vietnã. A estudante realizou o sonho de conquistar uma das cinco vagas da delegação nacional na semana passada, após cerca de dois anos de tentativa.

Cursando o 3º ano do Ensino Médio, a jovem conta ao Diário do Nordeste que está muito feliz com o resultado, fruto de uma longa jornada de provas teóricas e práticas, após a conquista de uma medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA). A classificação foi anunciada na última sexta-feira (8), em evento realizado na cidade de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro. 

Chorei na cerimônia. Quando saiu o resultado, vieram me dizer que tinha ficado em quarto. Daí, toda vez que vinha alguém me parabenizar, chorava mais.”

Um dos motivos da emoção foi o fato de Biatriz ter ficado entre os cinco melhores, o que, segundo ela, dispensou a necessidade do uso da “cota” de representatividade. O regulamento da OBA estipula que a delegação brasileira deve incluir ambos os gêneros, o que, tecnicamente, acarretaria a classificação obrigatória de uma mulher. “Estava com medo de só passar por conta da cota. Só que acabei não precisando dela, porque fiquei entre os cinco”, celebra. 

O colunista do Diário do Nordeste e professor de Astronomia, Ednardo Rodrigues, um dos responsáveis pelo treinamento da discente, avalia que a conquista é consequência de um esforço coletivo para incluir mulheres em áreas tradicionalmente masculinas. Inclusive, Biatriz detalha que seu resultado já motiva colegas que estudam no mesmo colégio a seguir seus passos. "Com certeza, ela vai inspirar ainda mais outras meninas a participarem das olimpíadas”, destaca o professor. 

A gente ainda tem uma predominância masculina porque é uma questão cultural, mas que está sendo quebrada, pois não há nenhum empecilho para as mulheres. Até mesmo porque, para algumas atividades cognitivas, [observo que] as mulheres são melhores do que os homens." 

Imagem mostra o professor de astronomia Ednardo Rodrigues ao lado da sua aluna, a estudante cearense Biatriz Soares, única mulher da delegação brasileira na Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica.

Legenda: Professor admira a estudante, destacando sua inteligência, proatividade e disponibilidade em ajudar outros colegas.

Foto: Arquivo pessoal.


A maratona rumo às estrelas 

A conquista da vaga na IOAA não foi imediata. A preparação começou na Olimpíada Brasileira de Astronomia de 2024, competição que garantia ingresso para a Olimpíada Internacional de 2025. No entanto, na época, a estudante não conseguiu se classificar. O sucesso aconteceu no ciclo seguinte, quando enfrentou novamente as cinco fases eliminatórias depois de competir com mais de 1,5 milhão de alunos de todo o Brasil.

Nas etapas finais, realizadas na cidade de Barra do Piraí, Beatriz foi submetida a testes teóricos com conteúdos de nível superior, como cálculo diferencial, trigonometria esférica e relatividade geral, além de provas práticas com equipamentos técnicos e planetários. Mesmo diante da complexidade, a certeza de que o esforço renderia frutos impediu a estudante de recuar diante dos desafios.

No final, antes da última fase, eu estava muito, muito cansada, mas tinha que terminar. Eu achava que tinha uma chance muito grande de conseguir. Se eu parasse, iria desistir da minha vaga, porque achava que a minha chance era quase absoluta de passar, já que fui muito bem na primeira etapa da final.”

Para ilustrar a dificuldade da seletiva, em uma das provas, que exigiu precisão e rapidez, a cearense recebeu um telescópio e teve que encontrar no céu, em apenas um minuto, o astro solicitado pelos avaliadores. “Se passasse do tempo, a nota ia descendo; se batesse 2 minutos, você zerava”, explica.

Imagem mostra membros da delegação brasileira classificada para disputar a Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica, formada, da esquerda para a direita, por: Eyke Cardoso de Souza Torres, a cearense Biatriz Soares, Arthur Alencar Spuri, Jailson Henrique Godeiro Neto e Isaac Victor de Araújo Santos.

Legenda: Membros da delegação brasileira, da esquerda para a direita: Eyke Cardoso de Souza Torres, a cearense Biatriz Soares, Arthur Alencar Spuri, Jailson Henrique Godeiro Neto e Isaac Victor de Araújo Santos.

Foto: Arquivo pessoal.



Um dos responsáveis pelo treinamento da aluna no Colégio Master, Ednardo Rodrigues, destaca que a conquista da jovem é fruto da sua dedicação e desempenho, que, segundo ele, são acima da média

"A Beatriz é uma estudante superdedicada, muito talentosa. Uma das mulheres mais inteligentes que já conheci. Ela tem uma proatividade acima do normal. É compreensiva e não é teimosa, segue as recomendações de alimentação, horário de dormir e de material de estudo direitinho”, detalha.

Mais de 10 horas de estudo e sonho de entrar no ITA

Para conquistar uma das cinco vagas brasileiras na Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica, a cearense encara uma rotina que se assemelha à de um atleta. A estudante chega ao colégio às 8h da manhã e retorna para casa apenas às 21h, dedicando-se quase integralmente à Astronomia nesse intervalo. Durante as fases mais intensas da seletiva, o professor revela que aconselha foco total, incluindo jejum de redes sociais. 

Mesmo com o ritmo intenso, Beatriz conta que busca manter o equilíbrio. "Gosto de desenhar, mas não pratico mais [porque não cabia mais na rotina]. Agora que passei pela parte mais difícil, que era me classificar, acho que consigo desenhar de vez em quando", conta a jovem. Além da preparação teórica, Ednardo conta que incentiva os alunos a cuidarem da saúde, priorizando no mínimo 6 horas de sono por dia e uma alimentação balanceada.

Com o passaporte carimbado para a IOAA, que ocorre entre os dias 25 de setembro e 6 de outubro deste ano, no Vietnã, a cearense revela que seu objetivo é garantir pelo menos uma medalha de prata. Devido à competição, ela terá que adiar outro sonho: ingressar no curso de Engenharia da Computação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que realizará o processo seletivo para 2027 na mesma época em que acontece a Olimpíada Internacional. “Este ano não poderei, mas farei o vestibular no ano que vem", projeta. 

Postagens mais visitadas do mês