Fósseis revelam mar de 430 milhões de anos na Serra da Ibiapaba, no Ceará

 

Fósseis de 430 milhões de anos revelam que Ceará já teve mar antes dos dinossauros
Fósseis de 430 milhões de anos indicam que existiu mar antes dos dinossauros em região serrana do Ceará. (Foto: UVA/Reprodução)



Vestígios encontrados em uma rocha de aproximadamente 700 quilos no Parque Nacional de Ubajara ajudam cientistas a reconstruir a história geológica do Ceará milhões de anos antes da formação atual da Serra da Ibiapaba.

Muito antes de os dinossauros existirem, parte do território cearense estava coberta por mar. A conclusão é reforçada pela descoberta de fósseis de aproximadamente 430 milhões de anos encontrados na Serra da Ibiapaba, no Ceará. Os vestígios foram identificados em uma rocha de cerca de 700 quilos localizada no Parque Nacional de Ubajara e revelam sinais de antigos organismos marinhos que viveram na região em um período extremamente remoto da história da Terra.

A descoberta ajuda pesquisadores a compreender como era o ambiente natural do Ceará milhões de anos antes da formação atual das serras da região. Hoje conhecida pelo clima mais ameno, vegetação serrana e potencial turístico, a Ibiapaba já apresentou características completamente diferentes das atuais.

Os fósseis analisados pertencem ao grupo dos chamados icnofósseis, que são marcas deixadas pela atividade de seres vivos em rochas. Mesmo sem restos corporais preservados, esses vestígios permitem identificar comportamentos, deslocamentos e interações de organismos marinhos que habitaram antigos fundos oceânicos.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Laboratório de Paleontologia do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Vale do Acaraú (Labopaleo/UVA), em parceria com o Museu Dom José, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e moradores da região.

Fósseis encontrados em Ubajara indicam existência de mar antigo no Ceará

Segundo os pesquisadores, os registros encontrados apontam que a área atualmente ocupada pela Serra da Ibiapaba já esteve submersa em um ambiente marinho há cerca de 430 milhões de anos. O período é muito anterior ao surgimento dos dinossauros e antecede inclusive a configuração geológica atual da região Nordeste.

Os vestígios encontrados em Tianguá ajudam cientistas a entender transformações naturais ocorridas ao longo de centenas de milhões de anos. A descoberta também amplia o valor científico da Serra da Ibiapaba, região que já possui relevância ambiental e turística dentro do Ceará.

Além da importância geológica, o material reforça o potencial do estado para pesquisas paleontológicas. O Ceará já possui reconhecimento internacional por fósseis encontrados principalmente na região do Cariri, conhecida pelos registros pré-históricos preservados em rochas sedimentares.

Vestígios ajudam cientistas a entender transformação da Serra da Ibiapaba

O coordenador do Labopaleo/UVA, professor Jarbas de Negreiros, explicou que a peça já vinha sendo utilizada em atividades acadêmicas antes de ganhar espaço permanente de preservação. Segundo ele, o material integrou estudos desenvolvidos em sua dissertação de mestrado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). A pesquisa também envolveu atividades de iniciação científica com estudantes do ensino médio, aproximando jovens do universo da paleontologia e das pesquisas científicas realizadas no estado.

A iniciativa teve ainda como objetivo retirar a rocha do pavimento onde estava instalada para garantir preservação adequada do material. A medida busca evitar desgaste natural e ampliar o acesso de pesquisadores, estudantes e visitantes ao fragmento fossilizado.

O trabalho também contou com apoio da comunidade local. A moradora, conhecida como Rosinha, e familiares participaram do processo de preservação e identificação da peça, segundo os pesquisadores envolvidos no projeto.

Rocha de 700 quilos será preservada para pesquisa e visitação

A rocha pertence ao acervo do Museu Dom José e foi cedida ao Parque Nacional de Ubajara por tempo indeterminado. O material ficará disponível para visitação pública e pesquisas científicas. A expectativa é que a descoberta desperte interesse não apenas de especialistas, mas também de turistas e estudantes interessados na história natural do Ceará. A exposição da peça deve fortalecer ações educativas ligadas à preservação ambiental e ao patrimônio paleontológico brasileiro.

Além do professor Jarbas de Negreiros, a equipe responsável pela iniciativa reúne a paleontóloga Maria Somália Sales, os doutorandos em Geologia pela UFC Thiago Lima e Antônio Maranguape, além do estudante de Ciências Biológicas da UVA Áled Lopes.

Ceará amplia importância nacional em estudos paleontológicos

Nos últimos anos, o Ceará consolidou espaço de destaque em pesquisas paleontológicas no Brasil. Descobertas realizadas em diferentes regiões do estado vêm ajudando cientistas a compreender mudanças ambientais ocorridas ao longo da formação do planeta.

Os fósseis encontrados na Serra da Ibiapaba reforçam esse cenário ao revelar evidências de vida marinha em um território atualmente distante do litoral e marcado por formações serranas. A descoberta também evidencia como áreas naturais protegidas, como o Parque Nacional de Ubajara, podem guardar registros fundamentais sobre a história da Terra ainda pouco conhecidos pelo grande público.



(GC+)

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