Vegetação nativa do Ceará é dividida em mais de 116,2 mil porções

 



A vegetação nativa do Ceará foi dividida em porções menores e mais isoladas pelo desmatamento. Havia 34,7 mil fragmentações de áreas verdes em 1986, e esse número subiu para 116,2 mil em 2023, representando aumento de 234% de pequenas frações de vegetação nativa no Estado.

Essas fragmentações ocorrem quando as áreas contínuas de vegetação nativa são desmatadas e divididas em porções cada vez menores e mais isoladas, para expansão agropecuária, urbanização, abertura de estradas ou outras finalidades.

No Ceará, o tamanho médio dos fragmentos também diminuiu em 76%. Antes, a área média era de 357 hectares em 1986 e em 2023 reduziu para 85 hectares, conforme os dados do Módulo de Degradação, do MapBiomas.

Nesse sentido, o tamanho das divisões dessas áreas também influencia, porque os fragmentos menores tendem a abrigar menos espécies e apresentam menor diversidade funcional.

O pesquisador Dhemerson Conciani, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e do MAPBiomas, explica que quanto mais fragmentada a vegetação de uma paisagem, maior é a chance de perda de conectividade e funcionalidade. 

“Se estamos falando de funções, também estamos falando de serviços que a vegetação nativa presta para as populações humanas, como a purificação de ar, a geração de água e as florestas também respiram. O processo que a gente conhece como evaporranspiração”, afirma Dhemerson.

Com as florestas "respirando" menos, há menos vapor de água na atmosfera, o que resulta em menos chuvas para o Estado.

Segundo o pesquisador, isso tudo também gera consequências socioeconômicas, porque a redução das chuvas impacta diretamente o nível dos reservatórios que abastecem as cidades, a geração de energia e a irrigação natural da agricultura.

Nesse sentido, caso os impactos sejam interrompidos e sejam estabelecidas áreas prioritárias para aumentar a conectividade, a biodiversidade cearense pode se recuperar progressivamente ao longo das próximas décadas.

Em 2024, 92,7% (mais de 9 milhões de hectares) da cobertura vegetal cearense era composta por formação savânica — vegetação tropical caracterizada pela presença de gramíneas (ervas/capim) contínuas e árvores ou arbustos esparsos — do bioma Caatinga.

Essa vegetação cobria mais de 11 milhões de hectares do Ceará em 1985. A formação savânica não possui cobertura florestal fechada, e na Caatinga, a vegetação mescla características da savana tradicional com adaptações à seca.

Embora o cenário seja preocupante, ele esclarece que a Caatinga possui um alto potencial de regeneração natural.

Nesse sentido, caso os impactos sejam interrompidos e sejam estabelecidas áreas prioritárias para aumentar a conectividade, a biodiversidade cearense pode se recuperar progressivamente ao longo das próximas décadas.

No total, aproximadamente 46% da vegetação nativa do território cearense (4,6 milhões de hectares) já foi exposta a pelo menos um vetor de degradação nas últimas quatro décadas. As áreas de “borda” das fragmentações sozinhas afetam até 42% da vegetação nativa do estado.

“Uma vez que cesse os impactos e estabeleça áreas prioritárias para o aumento de conectividade, em períodos de 5, 10, 15, 20, anos, a gente vai estar melhorando essa conectividade de forma natural, sem que precise grandes esforços de restauração”, diz Dhemerson.

Qual o panorama brasileiro de fragmentação da vegetação nativa?

Em todo o Brasil, a quantidade de fragmentos de vegetação nativa passou de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. Em todos os biomas brasileiros a quantidade de fragmentações aumentou 260% em 38 anos (1986-2023).

Segundo Dhemerson, a pesquisa aponta que a fragmentação é, na verdade, um “subproduto do desmatamento”, cujos efeitos negativos são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas.

Os principais fatores que impulsionam o aumento de fragmentações são o crescimento das áreas de pastagem e da agricultura, a expansão da mineração e das áreas urbanas.

Já em biomas que ainda possuem grandes blocos preservados, como a Amazônia e o Pantanal, a abertura de novas estradas é uma das causas fundamentais para a divisão da floresta.

A Mata Atlântica é considerada o bioma mais fragmentado do Brasil. Contudo, o estudo destaca um resultado impressionante sobre o Cerrado, que está "lado a lado" com a Mata Atlântica, apresentando também cerca de 2,7 milhões de fragmentos.

Porém, quando se observa o quanto a fragmentação cresceu nos últimos 38 anos dentro de cada bioma, os destaques negativos são o Pantanal e a Amazônia, que registraram aumentos de 350% e 330%, respectivamente.

As regiões com maior número de frações estão mais sujeitas à degradação — processo de deterioração, que torna a vegetação menos saudável, menos resiliente e com menor diversidade de espécies.

O desmatamento se diferencia deste processo porque remove a área verde e a deixa descoberta para algum tipo de uso antrópico, como a agricultura. Na degradação, a vegetação nativa permanece no local, mas é desgastada por diversos fatores.

Por outro lado, o Brasil ainda possui dois grandes blocos de vegetação conectada, o maciço de 98 milhões de hectares que une o Pantanal, Cerrado e Amazônia, e outro de cerca de 72 milhões de hectares que conecta o Cerrado à Caatinga.

Planos e acordos internacionais para restauração de áreas degradadas

Por meio do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), o Brasil tem a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.

A Planaveg foi lançada na Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP 16) realizada entre 21 de outubro a 1 de novembro de 2024, em Cali, na Colômbia.

O compromisso assumido na COP 16, também foi reforçado em outros acordos internacionais como o Acordo de Paris, o Desafio de Bonn e a Iniciativa 20X20.

“Todos os ecossistemas — sejam eles florestais, savânicos ou campestres — têm uma capacidade de autorrecuperação. A primeira coisa a fazer é cessar os impactos. Cessando os impactos, nós fomentamos a própria recuperação natural desses ecossistemas. Segundo, é identificar áreas prioritárias para restauração”, diz Dhemerson.

Os pesquisadores do Mapbiomas utilizaram imagens de satélite da constelação Landsat, abrangendo o período de 1986 a 2023. Esses satélites possuem resolução de 30 metros e registram imagens a cada 16 dias, o que permite o monitoramento contínuo de todo o território brasileiro.

A partir dos mapas anuais gerados, a equipe calculou diversos indicadores de degradação, incluindo o número e tamanho dos fragmentos, a área e idade da borda, a ocorrência de fogo, a presença de vegetação secundária, o corte seletivo e o isolamento das áreas.

Para Dhemerson, o mapeamento das coberturas vegetais ajuda a planejar o aumento da conexão entre áreas isoladas. Desse modo, segundo ele, seria possível restaurar vegetações que garantem funções ecossistêmicas, como a evapotranspiração e a regulação do regime de chuvas.




(O Povo)

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