Sítio de agricultor que achou petróleo pertence à família há quatro gerações: 'Valor simbólico'

 



“Quando aparece gente querendo comprar o terreno, meu pai já muda o rumo da conversa”, diz Sidnei Moreira. Ele é filho do agricultor Sidrônio, de 63 anos, que achou petróleo no subsolo da propriedade em Tabuleiro do Norte. 

Segundo Sidnei, o terreno está na família há gerações e já vem desde o tempo do bisavô do pai. Mesmo com propostas de compra, a venda do Sítio Santo Estevão está fora de cogitação no momento. 

“Tem um valor sentimental muito grande. É muito bom ter o canto da gente pra criar e plantar. No período que chove, o que a gente planta aqui, dá. A terra é muito boa”, reflete.

A descoberta do petróleo veio em novembro de 2024, quando seu Sidrônio perfurou dois poços artesianos no terreno em busca de água para irrigar a plantação e alimentar os animais da propriedade. 

No entanto, em vez de água, do chão brotou um líquido escuro e com odor semelhante a óleo e asfalto fresco. No último dia 19, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) concluiu que a substância encontrada é "petróleo cru".

Em maio deste ano, seu Sidrônio relatou ao Diário do Nordeste que havia recebido pelo menos quatro propostas de compra da propriedade. Todas, no entanto, foram prontamente negadas por ele. 

O valor das propostas não foi divulgado pelo agricultor.

Seu Sidrônio pode ter lucro com o petróleo encontrado em Tabuleiro do Norte?

Após a confirmação da natureza da substância, a ANP abriu um processo administrativo para avaliar a possível exploração da área. A ideia é estudar a inclusão do terreno em um bloco exploratório na Oferta Permanente de Concessão (OPC), atualmente principal modalidade de licitações de áreas para exploração e produção de petróleo e gás. 

No entanto, o órgão não estabeleceu prazo para a conclusão da avaliação técnica do terreno e destacou que essa inclusão não é garantida.

Além disso, a exploração do petróleo dificilmente teria viabilidade econômica. De acordo com especialistas, o alto custo de extração corre o risco de superar o valor de mercado do recurso.

Somado a isso, mesmo que a substância seja explorada, o material não é de seu Sidrônio: pela Constituição Federal e pela Lei do Petróleo (Lei n° 9.478/1997), os recursos do subsolo pertencem à União. 

Assim, caso haja atividade comercial, o agricultor pode receber entre 0,5% e 1% do valor da produção.

Após descoberta do petróleo, agricultor sofre com a falta de água e cogita vender gado

A ANP foi contatada em julho de 2025 e visitou o sítio em março deste ano, oito meses depois. De acordo com seu Sidrônio, as orientações iniciais da entidade envolviam não entrar em contato com a substância e não realizar novas perfurações, em razão da natureza desconhecida do líquido e da possibilidade de contaminação.

Atualmente, ele continua sem arriscar novas perfurações para buscar água. 

Na falta do recurso, a família mantém apenas uma pequena horta sem irrigação e uma criação de 20 cabras e cinco novilhos. Caso a situação perdure por mais tempo, o agricultor já cogita vender o pouco gado que tem.

No momento, a única renda para seu Sidrônio, a esposa, Maria Luciene, e o filho Sidnei, que residem no sítio, vem de um salário de aposentadoria (R$ 1.621).

Após a repercussão do caso, uma nova adutora foi inaugurada e passou a abastecer a propriedade. No entanto, o valor ainda desconhecido da cobrança pelo uso desse recurso causa receio na família, que mantém o consumo da água restrito às necessidades básicas. 

Na época da perfuração dos dois poços, seu Sidrônio precisou fazer um empréstimo bancário de R$ 15 mil para contratar um serviço de perfuração, e a esposa, Maria Luciene, alimentada pela esperança da água, fez um empréstimo de R$ 10 mil pouco tempo antes, com o objetivo de renovar o rebanho. A dívida ainda não foi paga. 

O QUE DIZEM AS AUTORIDADES

Segundo a ANP, a avaliação sobre as condições da área e medidas relacionadas à possível contaminação local competem à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado do Ceará (Semace). Também foi dito que, no momento, a Agência não identifica necessidade de retorno ao local. 

Procurada, a Semace alegou ter realizado, nesta quinta-feira (11), uma "reunião técnica para alinhar informações e definir os próximos encaminhamentos relacionados à situação”.

No entanto, até o momento da publicação desta matéria, não foram informados quais seriam esses encaminhamentos. Conforme relata Sidnei, a pasta também não procurou a família para falar sobre o caso. 


(Diário do Nordeste)

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