Uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou a presença de bactérias de origem intestinal humana suspensas no ar em um trecho da orla de Fortaleza. O estudo aponta que ligações clandestinas de esgoto lançadas em canais que deságuam no mar podem estar contribuindo não apenas para a contaminação da água, mas também da atmosfera próxima à faixa de praia.
A investigação foi realizada na área de influência do Riacho Maceió, local onde há registros recorrentes de lançamento irregular de esgoto doméstico. Segundo os pesquisadores, a combinação entre o movimento das ondas e a ação dos ventos favorece a formação de pequenas gotículas de água capazes de transportar microrganismos para o ar, em um processo conhecido como aerossolização.
Embora os resultados não indiquem, por si só, um risco imediato à população, eles reforçam a necessidade de combater o despejo irregular de esgoto e ampliar as ações de saneamento e monitoramento ambiental na capital cearense.
Estudo da UFC relaciona esgoto clandestino à contaminação do ar
Durante a pesquisa, foram coletadas amostras da água do mar e do ar em diferentes períodos do ano para avaliar como a poluição proveniente do esgoto doméstico se comporta em distintas condições climáticas.
As análises identificaram bactérias de origem intestinal humana suspensas na atmosfera da região estudada, sugerindo que a contaminação não fica restrita ao ambiente aquático.
De acordo com os pesquisadores, a origem do problema está nos canais urbanos destinados ao escoamento de águas pluviais, que acabam recebendo ligações clandestinas de esgoto. Ao alcançar o mar, essa água contaminada é agitada pelas ondas, favorecendo a dispersão de partículas microscópicas transportadas pelo vento.
Como bactérias chegam ao ar da Praia de Fortaleza
Os cientistas explicam que o processo ocorre de forma natural quando as ondas quebram sobre a faixa de areia.
Nesse momento, pequenas gotículas de água são lançadas para a atmosfera e podem carregar microrganismos presentes no mar contaminado. Essas partículas permanecem suspensas no ar e são deslocadas pela circulação dos ventos.
A cientista ambiental Jade Abreu, integrante da pesquisa, explica que a área do Riacho Maceió foi escolhida por apresentar histórico de lançamento irregular de esgoto. Segundo ela, os resultados evidenciam a importância de eliminar as fontes de poluição antes que os resíduos alcancem os recursos hídricos e provoquem impactos ambientais mais amplos.
Moradores e comerciantes convivem com os impactos
Quem frequenta diariamente a região afirma que os efeitos da poluição são percebidos há anos.
O pescador Francisco Adalberto relata que banhistas frequentemente reclamam de irritações na pele após entrar no mar e defende investimentos em saneamento para impedir que o esgoto continue chegando à praia.
Comerciantes também relatam prejuízos. Juliana Brito afirma que, principalmente durante o período chuvoso, o aumento do volume de água nos canais intensifica o mau cheiro e afeta a experiência de moradores e turistas.
Além do odor, a presença de resíduos e o aspecto da água são apontados como fatores que geram preocupação para quem trabalha diariamente na região.
Pesquisadores orientam acompanhar os boletins de balneabilidade
Os responsáveis pelo estudo reforçam que a população deve consultar regularmente os boletins de balneabilidade divulgados pelos órgãos ambientais antes de entrar no mar.
Esses levantamentos indicam quais trechos da orla estão próprios ou impróprios para banho com base em análises periódicas da qualidade da água.
Segundo os especialistas, pessoas com imunidade comprometida, idosos, crianças e indivíduos com problemas de saúde devem redobrar os cuidados, principalmente após períodos de chuva, quando aumenta o volume de água transportando resíduos pelos canais urbanos.
O que diz a Semace
Em nota, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) informou que realiza monitoramento contínuo da qualidade das águas das praias cearenses e divulga semanalmente os boletins de balneabilidade em seus canais oficiais.
Sobre as ligações clandestinas de esgoto mencionadas na pesquisa, o órgão esclareceu que a fiscalização direta dessas irregularidades está relacionada aos sistemas de saneamento, drenagem e infraestrutura urbana, atribuições que não fazem parte de sua competência.
O estudo da UFC reforça a importância da integração entre políticas públicas de saneamento básico, fiscalização ambiental e monitoramento da qualidade da água para reduzir os impactos da poluição sobre o meio ambiente e a saúde da população. Além de evidenciar os efeitos do despejo irregular de esgoto na balneabilidade das praias, a pesquisa amplia o debate ao indicar que essa contaminação também pode alcançar a atmosfera em áreas próximas ao litoral.
(GC+)



