A avó de um dos adolescentes baleados durante a gravação de uma “novelinha” para as redes sociais em Fortaleza contou como soube que o neto havia sido atingido pelos disparos. Lindomar Raimunda estava em casa, no bairro Parangaba, quando ouviu os tiros e correu até o local onde acontecia a gravação.
Segundo ela, ao chegar à esquina, inicialmente pensou que o outro neto havia sido atingido. A avó também questionou a forma como a abordagem policial foi realizada. Ela falou com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza sobre o ocorrido.
“Eu moro bem aí, aí eu estava sentada lá no quintal, quando eu ouvi os tiros, eu falei meu Deus do céu, e corri. Quando cheguei ali na esquina, eu pensava que era meu outro neto. Mas não era para os policiais terem feito uma coisa daquela. Era para ele chegar, abordar os meninos, saber o que os meninos estavam fazendo. Mas não chegar atirando logo nos meninos. Não pode.”
O caso aconteceu na última quarta-feira (16), na Rua Perdigão de Oliveira, na Parangaba, a poucos metros da Avenida General Osório de Paiva. Dois adolescentes, de 14 e 16 anos, foram baleados durante uma abordagem de policiais militares que haviam sido acionados para atender a uma suposta ocorrência de assalto.
Avó diz que neto começou recentemente a gravar vídeos
Lindomar afirmou que o adolescente de 16 anos não tinha o hábito de produzir esse tipo de conteúdo para as redes sociais. Segundo ela, a gravação fazia parte de uma atividade iniciada recentemente pelos adolescentes.
“Não, começaram agora. Iam gravar lá na pracinha e aí vieram gravar aí. Mas ele não tinha costume. E ele trabalha também, ele entrega quentinha. Terminou de entregar quentinha e veio gravar isso aí.”
Quatro adolescentes participavam da gravação: os dois que foram baleados, outro adolescente e uma menina. O grupo encenava uma situação de violência para produzir conteúdo para as redes sociais.
A gravação simulava um assalto. Os adolescentes estavam em uma motocicleta e utilizavam um objeto que aparentava ser uma arma de fogo. Posteriormente, foi constatado que o objeto era um simulacro, ou seja, uma arma falsa.
Segundo a Polícia Militar do Ceará (PMCE), equipes do Comando Tático Motorizado (Cotam) foram acionadas pela Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops) após informações de que um roubo estaria acontecendo naquele trecho da Parangaba.
Polícia diz que recebeu informações sobre suposto assalto
Durante o deslocamento até o endereço informado, os policiais foram abordados por uma pessoa que confirmou a existência da suposta ocorrência e indicou aos agentes onde ela estaria acontecendo.
Ao chegarem ao local, segundo a PMCE, os militares visualizaram dois adolescentes em uma motocicleta. A corporação informou que o garupeiro apontava uma arma para pessoas que estavam em uma calçada e exigia os aparelhos celulares.
Diante da situação, ainda de acordo com a Polícia Militar, os agentes efetuaram disparos contra os dois ocupantes da motocicleta. Os adolescentes foram atingidos e socorridos para uma unidade de saúde de Fortaleza.
Depois dos disparos, quando os policiais se aproximaram para dar continuidade à abordagem, foram informados de que aquela situação não correspondia a um assalto real. Tratava-se de uma encenação feita para a gravação de conteúdo para as redes sociais.
A arma utilizada na cena também não era verdadeira. O objeto foi identificado como um simulacro de arma de fogo.
Motocicleta e simulacro foram apreendidos
A motocicleta usada durante a gravação e o simulacro de arma de fogo foram levados para a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA). Um aparelho celular também foi apreendido.
Conforme as informações colhidas durante a ocorrência, a motocicleta pertence ao pai de um dos adolescentes e teria sido utilizada sem autorização.
As duas adolescentes que participavam da gravação e representavam as supostas vítimas do assalto também compareceram à DCA. Elas foram acompanhadas pelos respectivos responsáveis e prestaram esclarecimentos sobre o que havia acontecido.
A ocorrência foi apresentada na Delegacia da Criança e do Adolescente, onde foi registrado um boletim de ocorrência e adotados os procedimentos cabíveis.
Ação policial será investigada
As circunstâncias da intervenção policial serão analisadas por meio de um Inquérito Policial Militar (IPM), conforme informou a Polícia Militar do Ceará.
O procedimento deverá apurar as circunstâncias da ocorrência e da atuação dos policiais durante a abordagem aos adolescentes.
No momento do acionamento, a informação recebida pelas forças de segurança era de que um assalto estaria acontecendo na Rua Perdigão de Oliveira. A PMCE informou que essa versão também foi confirmada inicialmente por um transeunte, que indicou aos policiais o local da suposta ação criminosa.
Segundo a corporação, os militares reagiram depois de visualizar um adolescente apontando o que aparentava ser uma arma para pessoas que estavam na calçada e exigindo celulares. Somente após a intervenção, os agentes foram informados de que a situação fazia parte de uma gravação.
O caso segue sob investigação para esclarecer as circunstâncias da abordagem e dos disparos que atingiram os dois adolescentes.
(Gc+)



