A investigação sobre a morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, depende do cruzamento de diferentes elementos para esclarecer o que aconteceu no condomínio onde ela foi encontrada morta, em Fortaleza. A Polícia Civil do Ceará (PCCE) e a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) analisam lesões identificadas no corpo, imagens de câmeras de segurança, depoimentos, vestígios coletados no local e dados extraídos de aparelhos eletrônicos.
A Pefoce informou que o laudo cadavérico apontou politraumatismo, com lesões compatíveis com impacto contra o solo. Os exames laboratoriais realizados até o momento tiveram resultado negativo para substâncias de interesse toxicológico. A SSPDS-CE informou, no entanto, que a dinâmica dos fatos somente poderá ser concluída após o encerramento dos trabalhos.
Isabelle foi encontrada morta na noite de domingo (13), no pátio do condomínio onde morava com o namorado e familiares dele, no bairro Aldeota. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE), a morte ocorreu por volta das 20h40.
A investigação está sob responsabilidade da 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital.
Perícia e investigação precisam cruzar diferentes provas
A análise de uma morte em circunstâncias ainda não esclarecidas não depende apenas das lesões encontradas no corpo. A médica especialista em medicina legal e perícia médica Caroline Daitx explica que os diferentes elementos precisam ser avaliados em conjunto.
“Nenhuma lesão, sozinha, prova se uma queda foi acidente, suicídio ou homicídio. A resposta vem da soma de vários elementos”, explica.
Durante a necropsia, um dos pontos analisados é verificar se a vítima estava viva no momento da queda e se existem ferimentos que não possam ser explicados pelo impacto contra o solo.
Também podem ser procuradas marcas de contenção, lesões de defesa nas mãos e nos antebraços e ferimentos de idades diferentes. O exame detalhado do pescoço e das costas pode contribuir para identificar eventuais sinais de agressão ou contenção.
Exames de imagem também podem auxiliar na identificação de fraturas e na avaliação da forma como o corpo atingiu o solo.
Para a especialista, o conjunto formado por lesões, toxicologia, imagens e depoimentos deve ser analisado sem que uma hipótese inicial determine a interpretação dos demais elementos.
“Lesões, toxicologia, imagens e depoimentos são peças de um mesmo quebra-cabeça, que precisam se encaixar sem contradição. As lesões mostram o que aconteceu com o corpo, a toxicologia ajuda a avaliar o estado da pessoa e as câmeras fornecem uma linha do tempo”, afirma.
Câmeras ajudam a reconstruir a sequência dos acontecimentos
As imagens do condomínio estão entre os elementos analisados pela Polícia Civil. Segundo a SSPDS, os investigadores conseguiram estabelecer uma cronologia dos deslocamentos de Isabelle e do namorado a partir das gravações.
O material continua sendo analisado. As câmeras podem ajudar a estabelecer horários, identificar pessoas que estiveram em determinados locais e acompanhar os deslocamentos antes e depois do momento em que Isabelle morreu.
O advogado Leonardo Pantaleão, especialista em Direito e Processo Penal e sócio fundador da Pantaleão Sociedade de Advogados, explica que as imagens também podem ser confrontadas com os demais elementos reunidos durante a investigação.
“As câmeras podem estabelecer a cronologia, identificar quem esteve no local e os deslocamentos da vítima e de outras pessoas. Já a perícia examina os vestígios materiais e pode contribuir para verificar se a dinâmica encontrada é compatível com uma queda acidental, um ato voluntário ou eventual atuação de terceiros”, afirma ele.
Segundo o advogado, a análise não deve considerar uma prova de forma isolada.
“O esclarecimento da morte dependerá da convergência entre imagens, perícias, depoimentos, dados extraídos de aparelhos eletrônicos e os demais elementos reunidos durante a investigação.”
Celulares, DNA e depoimentos também são analisados
O celular de Isabelle já passou por perícia, e o conteúdo do aparelho está sendo analisado pela Polícia Civil. O objetivo é reunir informações que possam ser confrontadas com os demais elementos da investigação.
No domingo (20), a PCCE também realizou uma operação para localizar a mãe do namorado da estudante. Ela foi encontrada na praia do Cumbuco, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Um mandado de busca e apreensão foi cumprido, e um celular e um tablet da mulher foram apreendidos. Os equipamentos serão submetidos a perícia.
A SSPDS informou ainda que equipes da Polícia Civil realizam diligências para localizar o namorado de Isabelle. Até o momento, ele não foi encontrado e está sendo procurado.
A secretaria não informou que o namorado ou a mãe dele sejam suspeitos pela morte da estudante. As medidas fazem parte das diligências destinadas à coleta de elementos para esclarecer o caso.
Até domingo (20), quatro pessoas haviam prestado depoimento. Outras quatro oitivas estavam agendadas.
A Pefoce também retornou ao condomínio para realizar novas perícias nas áreas comuns e no apartamento onde Isabelle morava com o namorado e familiares dele. Houve complementação da coleta de vestígios de DNA e produção de novas imagens do local com o uso de drone.
Isabelle estava grávida, revela irmão
Isabelle estava grávida, segundo revelou o irmão dela, o psicólogo clínico Rafael Magalhães, em entrevista à TV Cidade Fortaleza na manhã desta segunda-feira (21). De acordo com Rafael, a gravidez foi descoberta por meio de um teste.
A informação sobre a gravidez é uma atualização do caso e, até o momento, não foi apresentada pela Polícia Civil ou pela Pefoce como elemento relacionado à causa ou à dinâmica da morte.
A investigação continua analisando os diferentes elementos reunidos desde a localização do corpo.
O que já foi identificado pela perícia
O laudo cadavérico apontou politraumatismo e lesões compatíveis com impacto contra o solo. Os exames laboratoriais realizados não identificaram substâncias de interesse toxicológico.
Esses resultados não estabelecem, isoladamente, como ocorreu a queda ou em quais circunstâncias Isabelle chegou ao local onde foi encontrada.
Segundo a SSPDS, somente depois da conclusão dos trabalhos será possível determinar a dinâmica dos fatos que influenciaram a morte.
Caroline Daitx ressalta que a análise do local também pode contribuir para a reconstrução dos acontecimentos. Parapeitos, marcas, sangue, fibras, telas danificadas, objetos deslocados e a distância entre o edifício e o ponto onde o corpo foi encontrado podem fornecer informações para a investigação.
A posição das marcas do primeiro impacto também pode ser considerada na reconstrução da dinâmica.
Para a médica, eventuais divergências entre relatos e vestígios precisam ser aprofundadas. Antecedentes pessoais ou de saúde, isoladamente, não determinam a natureza de uma morte.
O que a mãe relata sobre o relacionamento
A professora universitária Isorlanda Caracristi, mãe de Isabelle, também passou a relatar informações sobre o relacionamento da filha.
Segundo Isorlanda, Isabelle conheceu o namorado em um escritório de advocacia onde havia começado um estágio. O homem, de acordo com o relato da professora, era um dos chefes da jovem e tinha cerca de dez anos a mais.
A mãe afirma que o relacionamento começou cerca de dez dias depois do início do estágio.
Isorlanda relatou ter percebido comportamentos que considerava controladores. Entre os episódios citados por ela estão uma consulta médica na qual o namorado teria tentado acompanhar Isabelle na sala e uma situação em que, segundo a professora, ele teria pedido para utilizar o cartão da jovem e sugerido colocar uma empresa em nome dela.
A mãe afirmou ainda que alertou a filha sobre a relação e que pretendia tomar providências para que ela se afastasse do namorado.
Essas afirmações são relatos de Isorlanda e não foram apresentadas pela Polícia Civil como conclusão sobre o relacionamento ou como explicação para a morte.
Últimas horas de Isabelle antes da morte
Segundo a mãe, Isabelle passou parte do fim de semana na casa da família e reclamava de dor no pescoço. No domingo, recebeu um relaxante muscular e depois informou que iria a uma missa e a uma procissão com o namorado e familiares dele antes de voltar ao condomínio.
Por volta das 19h, conforme o relato da professora, Isabelle enviou uma mensagem dizendo que havia deixado uma comida na air fryer. Pouco depois, mandou outra mensagem: “Mãe, eu te amo”.
Isorlanda contou que a filha costumava enviar uma mensagem de boa noite diariamente, mas isso não aconteceu naquela noite.
Na manhã seguinte, a professora tentou falar com Isabelle várias vezes, sem conseguir contato. Ela também tentou falar com o namorado da filha. Segundo seu relato, não recebeu resposta e percebeu que havia sido bloqueada nas redes sociais dele.
Diante da falta de notícias, Isorlanda chamou o irmão e foi até o condomínio.
Segundo a professora, funcionários do prédio inicialmente não informaram o que havia acontecido. Ela e o irmão foram encaminhados à síndica, que teria comunicado a morte da estudante e informado que o corpo já havia sido levado ao IML.
A família afirma que não recebeu a notícia diretamente do namorado ou de familiares dele.
Família cobra respostas sobre a morte
A repercussão do caso aumentou depois que Isorlanda publicou um vídeo nas redes sociais cobrando explicações sobre a morte da filha.
Em entrevista à TV Cidade, a professora afirmou: “É muito fácil manipular uma mente de um jovem”.
Ela também declarou: “Não se deixem enganar pelas aparências”.
Rafael Magalhães, irmão de Isabelle, falou sobre a morte da irmã e afirmou que a família ainda tem perguntas sobre o que aconteceu.
“Tem muita coisa por trás”, disse Rafael.
As declarações dos familiares representam os relatos da família e não constituem conclusões da investigação policial.
O que ainda falta esclarecer no caso Isabelle Caracristi
A Polícia Civil ainda não determinou oficialmente a dinâmica da morte de Isabelle. A investigação reúne imagens de segurança, depoimentos, exames periciais, análise de aparelhos eletrônicos e vestígios coletados no condomínio e no apartamento.
Leonardo Pantaleão afirma que, caso surjam elementos objetivos incompatíveis com uma hipótese inicialmente considerada ou indícios de possível participação de terceiros, a investigação pode ser ampliada mesmo antes de existir uma conclusão definitiva sobre um eventual crime.
Segundo o advogado, contradições relevantes em depoimentos, comunicações da vítima, dados de aparelhos eletrônicos, imagens ou novos elementos periciais podem levar à realização de novas diligências, perícias e novos depoimentos, além de outras medidas previstas em lei quando houver os requisitos necessários.
A preservação dos vestígios também é considerada importante durante a investigação. Caroline Daitx destaca que uma hipótese inicial não deve determinar quais elementos serão considerados.
“A primeira hipótese não pode guiar a perícia. O correto é documentar todos os vestígios, porque uma lesão não registrada no primeiro exame dificilmente poderá ser recuperada depois.”
O mesmo cuidado se aplica às imagens de segurança, que podem ser apagadas, e ao próprio local da ocorrência, que pode sofrer alterações com o passar do tempo.
Até o momento, está estabelecido que Isabelle morreu na noite de 13 de setembro, por volta das 20h40, no condomínio onde morava. A perícia identificou politraumatismo e lesões compatíveis com impacto contra o solo, enquanto os exames toxicológicos realizados não encontraram substâncias de interesse.
A conclusão sobre como a morte ocorreu ainda depende da análise conjunta dos elementos reunidos pela Polícia Civil e pela Pefoce.
(gc+)



