Violência doméstica e relação com o CV: o que está por trás da morte de zelador em prédio no Benfica





Ciúmes, agressões, ameaças de massacre e relação com facção criminosa. As circunstâncias do assassinato de Francisco Márcio Guilherme Cordeiro, zelador de um condomínio residencial no Benfica, em Fortaleza, vão muito além de um simples desentendimento por vaga de garagem e revelam um emaranhado de outros crimes graves que precederam o que foi registrado na manhã do último 2 de abril.

Lucas Cordeiro Aguiar, de 23 anos, conhecido como 'LC Playboy', acusado de ser um dos coautores do homicídio, foi pronunciado nessa terça-feira (8) e será levado ao Tribunal do Júri para responder pelo assassinato, que tem as qualificadoras de "motivo torpe" e "recurso que dificultou a defesa da vítima". A data, porém, ainda não foi definida.

O Diário do Nordeste procurou a defesa do acusado mas não teve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

A decisão do Judiciário considerou a materialidade do delito, comprovada pelo laudo cadavérico do zelador, e a suficiência de indícios de participação nos fatos investigados.

A sentença de pronúncia apontou ainda que a defesa do acusado apresentou argumentos técnicos qualificados e consistentes sobre a confiabilidade e o alcance das provas. No entanto, a avaliação dos elementos probatórios caberá ao Conselho de Sentença do Júri, e não ao juiz. Enquanto aguarda o julgamento, Lucas seguirá recolhido na Unidade Prisional Elias Alves da Silva (UP-Itaitinga 4). 

Uma semana antes, réu ameaçou fazer um 'massacre' no condomínio

Consta em documentos do inquérito sobre o caso, aos quais o Diário do Nordeste teve acesso, que o réu tem "amplo histórico criminal" e "comprovado vínculo" com o grupo criminoso Comando Vermelho (CV), sendo subordinado de Carlos Mateus da Silva Alencar, o 'Skidum', um dos principais chefes da facção na Capital.

As testemunhas ouvidas pela Polícia, no entanto, acreditam que o CV não ordenou ação criminosa, mas, sim, Lucas, que teria agido por conta própria, usando a influência da facção.

Dias após a morte do zelador Francisco Márcio, conhecido como 'Horácio', a Polícia usou o argumento da relação com o CV para justificar a urgência da prisão temporária de Lucas, ressaltando que as vidas dos familiares da ex-namorada dele, de funcionários do prédio do Benfica, de outros condôminos e de vizinhos que cederam imagens de câmeras de segurança corriam "risco severo e imediato".

Em relatos do processo, incluindo alguns sob anonimato, as testemunhas afirmaram que, uma semana antes do assassinato do zelador, depois de ser "proibido" pelo zelador e pelo síndico de entrar com a moto no condomínio, o acusado ameaçou explodir o prédio com uma granada e fez outras ameaças à família da ex-companheira, que mora no local.

Desentendimento por vaga de garagem foi estopim para assassinato

Segundo a denúncia apresentada à Justiça pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), o crime foi motivado por "desavenças fúteis". Lucas frequentava o condomínio da ex-namorada, onde chegou a morar com ela por um tempo, e costumava estacionar sua motocicleta em área restrita, reservada aos condôminos. Um dia, após ser alertado pelos funcionários que, por causa disso, não poderia mais acessar o local, ele teria ficado irritado e ameaçado os dois de morte.

O acusado teria voltado ao local uma semana depois, acompanhado de outra pessoa, o 'Maguin', e ficado do lado de fora aguardando na moto. O intuito da dupla seria matar zelador e o síndico, mas apenas o trabalhador dos serviços gerais foi encontrado. Francisco Márcio correu pelo prédio, mas acabou morto com três tiros em um banheiro. Executor e mandante do crime fugiram.

Embora o edifício tivesse câmeras de monitoramento interno, a cena não foi registrada. No relatório produzido pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) sobre o caso, os investigadores afirmaram que foram informados de que os equipamentos não estavam funcionando por "ordem" de criminosos atuantes na área.

'Maguin' foi identificado no inquérito policial como o executor dos disparos que mataram 'Horácio', mas a Promotoria de Justiça do MPCE considerou que as provas colhidas até aquele momento eram insuficientes para denunciá-lo

Violência doméstica e ameaças à família da ex-namorada

Ainda conforme relatos de testemunhas, a presença de Lucas no condomínio intimidava e amedrontava moradores. Ele chegou a morar lá com a ex-companheira durante um tempo, mas teria saído do apartamento após o término do namoro, cerca de um mês antes do assassinato do zelador. O prédio é o mesmo onde moram os pais dela e os filhos pequenos que a mulher teve em outro relacionamento.

Nos documentos obtidos pela reportagem, o réu é mencionado ainda como alguém possessivo e que teria "ciúmes doentios" da ex-namorada. Um dos depoimentos afirma que a relação dos dois era marcada por episódios constantes de violência física e brigas motivadas por acusações de traição. Dias antes do crime, inclusive, a mulher teria sido agredida por ele com socos no rosto em uma nova crise de ciúme.

Ele também teria divulgado fotos e vídeos íntimos da ex na internet e descumprido medidas protetivas de urgência, frequentando, sem permissão, as imediações do edifício. Além disso, teria se aproveitado do envolvimento com o Comando Vermelho para causar temor na região, fazendo ameaças diretas de morte a quem o contrariasse.



(Diário do Nordeste)

Postagens mais visitadas do mês