Você está em: NACIONAL // Notícia de Fagner Freire // 2 de agosto de 2022

  (crédito: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

Costumamos ouvir que uma dieta balanceada deve conter a ingestão de proteínas — incluindo as presentes nas carnes vermelhas. Porém, discussões e pesquisas mostram que esse nutriente pode, também, trazer malefícios à saúde. Um estudo conduzido pela Universidade de Tufts e pelo Instituto Lerner, ambos nos Estados Unidos, mostra que o consumo da carne vermelha e carne processada pode aumentar em 22% o risco de ocorrência de doenças cardiovasculares em idosos.

Ao longo dos anos, cientistas investigaram a relação entre doenças cardíacas e gordura saturada, colesterol dietético, sódio, nitritos e até cozimento em alta temperatura, mas as evidências que apoiam muitos desses mecanismos não são robustas. O novo estudo, publicado na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology, sugere que os culpados subjacentes podem incluir metabólitos criados pelas bactérias intestinais quando comemos carne.

Com quase 4 mil participantes acima de 65 anos, a pesquisa mostra que há um risco 22% maior para cada 1,1 porção de proteína ingerida por dia — e cerca de 10% desse risco elevado é explicado pelo aumento dos níveis de três metabólitos produzidos por bactérias intestinais a partir de nutrientes abundantes nas carnes vermelha e processada: o N-óxido de trimetilamina (TMAO), a gama-butirobetaína e a crotonobetaína. A vulnerabilidade não foi constatada com o consumo de aves, ovos ou peixes, e os voluntários foram acompanhados por, em média, 12 anos e meio.

Outros fatores, como o aumento do nível de açúcar no sangue e a ativação de inflamações no corpo a partir da carne, se mostram mais nocivos que o colesterol ou a pressão arterial. "Curiosamente, identificamos três caminhos principais que ajudam a explicar as ligações entre carne vermelha e processada e doenças cardiovasculares — metabólitos relacionados ao microbioma, níveis de glicose no sangue e inflamação geral —, e cada um deles parecia mais importante do que os caminhos relacionados ao colesterol no sangue ou a pressão arterial", analisa, em nota, o coautor sênior, Dariush Mozaffarian.

Segundo a equipe de cientistas, esse é o primeiro estudo a investigar as interrelações entre alimentos de origem animal e o risco de doenças cardiovasculares. Na avaliação de Meng Wang, coprimeira autora do artigo e pós-doutoranda na Friedman School, ligada à Universidade de Tufts, a pesquisa responde a perguntas de longa data sobre a ligação entre a proteína e esse tipo de complicação. "As interações entre a carne vermelha, o nosso microbioma intestinal e os metabólitos bioativos que eles geram parecem ser um caminho importante para o risco, o que cria um alvo para possíveis intervenções para reduzir doenças cardíacas", avalia.

Melhores escolhas


Para os autores, compreender os impactos do consumo de carne é particularmente importante em idosos porque, apesar de serem mais suscetíveis à ocorrência de complicações cardíacas, essas pessoas podem se beneficiar da ingestão de proteínas — o nutriente compensa a perda de massa e força muscular relacionadas à idade. Os resultados, avaliam, indicam que melhores escolhas alimentares podem funcionar como um fator protetivo para o coração. "O estudo também defende os esforços dietéticos como meio de reduzir esse risco, uma vez que as intervenções dietéticas podem reduzir significativamente o TMAO", afirma Stanley L. Haze, chefe da seção de cardiologia preventiva e reabilitação na Cleveland Clinic e coprimeiro autor.

Ahmed Hasan, do Instituto Nacional de Saúde, cujos dados baseiam a análise, pontua que é preciso aprofundar o estudo sobre o efeito da carne vermelha na saúde cardíaca de idosos, mas os primeiros resultados indicam que, ao escolher alimentos de origem animal, pode ser menos importante o foco nas gorduras totais e saturadas, por exemplo, do que entender os efeitos sobre a saúde de outros componentes do alimento. "Embora sejam necessárias mais pesquisas, os relatórios atuais fornecem um novo alvo potencial para prevenir ou tratar doenças cardíacas em um subgrupo de pessoas que consome quantidades excessivas de carne vermelha", diz.

Apesar da descoberta, eliminar a carne do cardápio não é a salvação para evitar doenças cardiovasculares, esse é apenas um caminho para a prevenção em determinados grupos. Hasan ressalta que, independentemente da idade, para um estilo de vida que seja saudável para o coração, é preciso a adoção de uma dieta rica em vegetais, frutas e grãos integrais, além de controlar o estresse, ter qualidade de sono e praticar exercícios físicos.

Risco maior de morte

Parte do grupo de pesquisadores que relaciona a ingestão de carne vermelha e processada à saúde cardiovascular publicou, em maio, na revista Jama Network Open, um estudo que associa o TMAO e outros metabólitos ao risco de morte em pessoas mais velhas. A vulnerabilidade foi de 20% a 30% maior entre idosos com níveis mais altos desses compostos no plasma e em seus biomarcadores do que os com taxas mais baixas.

Os resultados foram obtidos na análise de dados de mais de 5 mil pessoas. Para os autores, as informações podem ajudar na criação de estratégias para reverter os níveis do metabólito. "Agora que sabemos mais sobre a gravidade dos riscos associados ao TMAO, podemos explorar abordagens eficazes para alterar esses níveis no corpo", afirmou, à época, em nota, a coprimeira autora do artigo, Amanda Fretts, do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Washington. 



(Correio de Brasília)

Caderno: NACIONAL
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