Um projeto de iniciação científica desenvolvido por estudantes de uma escola pública do interior do Ceará ultrapassou as fronteiras do País e ganhou reconhecimento internacional.
A pesquisa, realizada por alunos da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Raimundo da Cunha, no município de Graça, cerca de 315 km de Fortaleza, foi selecionada para apresentação na Universidade de Lisboa, em Portugal.
O evento faz parte da II Conferência Internacional Mulheres e Escravatura: violência, resistência e diásporas, realizada entre os dias 2 e 3 de junho.
Intitulado "Libertadoras Cearenses: protagonismo feminino na abolição da escravidão na província do Ceará (1880-1884)", o estudo investiga a participação de mulheres no movimento abolicionista cearense. Um aspecto ainda pouco explorado pela historiografia e praticamente ausente dos livros didáticos.
Segundo o professor de História César Valuche Oliveira Brito, coordenador da pesquisa, a iniciativa surgiu durante as atividades relacionadas à Data Magna do Ceará. Celebrada em 25 de março, a data marca a abolição da escravidão na província, em 1886, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea.
"Quando começamos a trabalhar esse tema, percebemos que não havia praticamente nenhuma referência ao papel das mulheres nesse processo. Nem na bibliografia especializada nem nos materiais didáticos. A partir dessa constatação, decidimos investigar quem eram essas mulheres e qual foi a contribuição delas para a abolição da escravidão no Ceará", explica.
Um resgate da história
O projeto teve início em 2024 e envolveu estudantes das três séries do ensino médio. Ao longo da pesquisa, os participantes analisaram artigos acadêmicos, dissertações, teses e documentos históricos. A principal fonte de pesquisa foi o jornal O Libertador, publicado em Fortaleza entre 1881 e 1892.
Um dos principais achados foi a atuação da associação abolicionista Libertadoras Cearenses, formada exclusivamente por mulheres e liderada por Maria Tomásia Figueira Lima. O grupo atuava diretamente na negociação de cartas de alforria com proprietários de escravizados e promovia ações voltadas à integração social das pessoas libertadas.
"As Libertadoras Cearenses não pensavam apenas na libertação dos escravizados. Elas também pensavam em um projeto educacional para integrar essas pessoas na sociedade quando estivessem livres", destaca o professor.
Durante a investigação, os estudantes decidiram aprofundar a pesquisa para compreender também o papel das mulheres negras e das camadas populares no processo abolicionista. Foi nesse momento que surgiu a figura de Preta Tia Simoa, identificada posteriormente como Simoa Maria da Conceição.
Segundo o estudo, ela participou da histórica Greve dos Jangadeiros de 1881, movimento que interrompeu o embarque e desembarque de pessoas escravizadas no Porto de Fortaleza.
A primeira grande dificuldade da pesquisa, conforme o professor, foi encontrar referências sobre o papel das mulheres na luta abolicionista devido à falta de registros.
“Agora, encontrar o papel das mulheres negras e pobres nesse processo foi ainda mais desafiador, o que evidencia o apagamento histórico dessas personagens”, destaca César.
Cerca de 15 estudantes participaram da pesquisa. Entre eles está a aluna Ticiane Lima Araújo, de 16 anos, que, junto com o professor, representou a escola na conferência, em Portugal.
Ela conta que a experiência foi transformadora tanto do ponto de vista acadêmico quanto pessoal.
"Como mulher cearense e autista [nível 1], foi muito importante ver essa representatividade. Sair do meu lugarzinho, do meu Estado, e apresentar uma pesquisa em outro país é algo que eu nunca imaginei viver. "Foi uma experiência incrível, algo que eu nem sei como descrever", conta.
Protagonismo estudantil
Na Universidade de Lisboa, a pesquisa chamou a atenção de especialistas de diferentes países. De acordo com César Valuche, um dos aspectos mais elogiados foi o fato do trabalho ter sido desenvolvido em uma escola de ensino médio.
"Nós éramos a única equipe formada por estudantes do ensino médio. Todos os outros projetos foram desenvolvidos por universitários [...] Muitos pesquisadores perguntaram como conseguimos desenvolver uma pesquisa desse porte dentro da educação básica e ainda destacaram a importância de trabalhar a história dessas mulheres na escola", relata Ceasar.
(O Povo)



